Quem, por acaso ou sem acaso, assistiu a entrevista do cabo Anselmo no último Canal Livre? Merece alguns comentários, apesar de que… Merece, porque traz à tona a história do Brasil, muito embora se refira a um triste momento dessa história. Outros talvez diriam se tratar de um momento indigno de comentários e lembranças. Não é o caso. Reviver os fatos, as mágoas, e rabiscar as páginas da história: eis uma tarefa inevitável para qualquer civilização valente. Europa e os EUA não se cansam de estudar seu glorioso passado. Não obstante tudo, devemos também os brasileiros enfrentar aquilo que somos nós mesmos, o nosso passado.
Cabo Anselmo é o trágico protagonista de uma comédia qualquer – aquele cujo talento principal consiste em simplesmente errar, dizer a frase errada na mais inoportuna hora. Nasceu e cresceu no interior de Sergipe, embebeu-se da tradição católica em uma escola comum, assim como todo bom rapaz de classe média de sua época, para, então, quando empregado na Marinha, deixar-se seduzir serenamente por algum marxismo vulgar, desses oferecidos com fartura no mercado das idéias juvenis.
Líder sindical da Marinha, isso já em meados de 1964, cabo Anselmo proferiu este discurso, segundo relatou ontem, escrito por Maringhela, forte liderança comunista da época. O tal discurso foi considerado o estopim para a queda do governo Jango. Verdade que não se compara, em eloqüência, aos ferozes discursos de um Carlos Lacerda. Mas, para a história, o estopim é um evento que recebe um brilho religiosamente próprio. Na entrevista de ontem, um ingênuo senhor Anselmo afirmava não ter calculado os precedentes de sua ação; dizia ter-se arrependido pelas crueldades do marxismo. Quando torturado, revelou Anselmo, o jovem cabo teria se convencido dos desastres causados por uma guerra civil e seu impacto na população brasileira. Naquele momento haveria se arrependido profundamente de seu passado revolucionário, razão pela qual denunciou todos os antigos companheiros e companheiras, incluindo sua esposa. De herói revolucionário passou a ser visto como espião militar. Extremismos à parte, foi ele um coitado cujo radicalismo justificou e alimentou a fome de uma elite conservadora.
Ficamos assim: o homem Anselmo, não mais cabo, sobreviveu não para contar a história, mas para obter aposentadoria dos nossos bolsos. Devido ao despreparo dos entrevistadores (os quais, ao que tudo indica, nem sequer leram o livro que Anselmo escreveu), nada mais foi possível extrair do ex-cabo Anselmo. Sobraram apenas uma porção de relatos históricos já sabidos e outro punhado de opiniões banais sobre Cuba e sobre os serviços públicos; opiniões, estas sim, que merecem nada mais do que um imediato ponto final.


