Arquivo de Setembro, 2009

Se Deus passar por Brasília

20 Setembro, 2009

Enfim o espírito absoluto, essa profecia de Hegel, parecia soprar um pouco de Razão pelos ares de Brasília. Razão para guiar os homens de terno e gravata, que discutiam e votavam nossa mini-reforma eleitoral. De certo, mudaram leis que regularão, com o ferro da justiça eleitoral e o fogo de adversários, as próximas eleições no país (fora da Europa) da Oktoberfest e do Carnaval.

Envoltos pelo espírito absoluto ou não, nossos congressistas (ufa!) libertaram a expressão virtual dos grilhões do século XIX, bem como o voto em trânsito dos nossos viajantes. Já não precisamos temer, caros internautas, as punições por escrever livremente nos posts de nossos blogs e nos perfis das nossas redes sociais. Também agora podemos votar mesmo longe de nosso distrito eleitoral. Nada como um feriado político! E pronto. Termina por aqui a dose de razão humana deste biênio. As próximas mudanças ficam para a próxima eleição, ok? Verdade que algumas são, digamos, reformas urgentes. Entre elas, o fim das coligações proporcionais. Afinal, quem ainda defende esse tipo de coligação?! Ficou comprovado! Há tempos alguns partidos se utilizam delas para vender o seu espaço na TV como se fosse… seu. Quer dizer, o horário é pago pelos cofres públicos, pois acreditávamos em direitos iguais para divulgação de projetos. Ninguém criou a lei para legendas nanicas venderem seus espaços de mídia a partidos grandes. Desse jeito, não há espírito absoluto que resolva. É importante que se entenda: as leis e os desenhos institucionais são muito, muito importantes, mas não suficientes para garantir uma plena democracia, se é que alguma possa existir. Tão essencial é a educação nas esferas pública e privada: a dinâmica social de cidadãos livres, que cotidianamente elevem o mundo para níveis cada vez mais superiores. É exatamente isso o que afirmava Hegel na sua filosofia do direito. Nós somos o espírito absoluto, nós somos Deus.

45 anos de Ipea

14 Setembro, 2009

Nesta quarta, no auge de sua decadência, para usar uma expressão evidentemente provocativa, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada completa seus 45 anos existência institucional. Devido às recentes falhas metodológicas, a data comemorativa não poderia ser a pior. Em 1964 fora essa instituição uma das primeiras crias do governo militar. Ainda hoje continua prestando serviços de valor inestimável ao país. Contribuíram com as pesquisas aplicadas boa parte dos melhores economistas brasileiros, como revela este belo estudo documental. Vejo, no entanto, que é hora de buscar maior interdisciplinaridade, para que erros absurdos como aquela comparação de produtividade sejam evitados. Que o próximo presidente afaste o Ipea da influência política! Que seus estudos estejam sempre abertos à crítica científica! – posto que ciência nenhuma é axiologicamente neutra. O papel dessa instituição não é advogar pelas políticas públicas, mas fornecer informações confiáveis aos decisores – estejam eles no executivo, no legislativo ou mesmo em grupos externos ao aparato burocrático. Vida longa ao nosso Ipea.

Em quais candidatos você NÃO votaria?

12 Setembro, 2009

Vale preencher mais de uma resposta na enquete ao lado, se o leitor me permite a pergunta indiscreta, em tempos de temor à esfera pública.

Em vez de reconhecer a oportunidade de expor publicamente a sua individualidade, e garantir ao seu “ser” um status ontológico diferente de “nada” (para deleitarmo-nos com essa genial inferência de Hannah Arendt), o dito cidadão moderno prefere o silêncio da sobrevivência. Não é culpa dele. A bem da verdade é que ele é um homem, não é um cidadão, no sentido antigo da palavra. Dotado de inteligência, o homem consegue bravamente superar os obstáculos da natureza e sobreviver por um piscar da história, dificilmente mais do que 100 anos. Já o cidadão é dotado da coragem e as referências de seu mundo estão apontadas não para a sua vida, mas a para a sobrevivência e a glória do próprio mundo.

De toda forma, a enquete ao lado foi construída de modo a preservar a privacidade da sua opinião. Eis uma característica importante para o desenvolvimento da recente ciência da estatística. Não à toa, é ela a principal ferramenta das modernas ciências sociais. Mantêm o anonimato dos indivíduos pesquisados, resumindo e simulando seus comportamentos. Com esses ensinamentos aprendemos que a pergunta pela rejeição é capaz de garimpar a real preferência do e-leitor. Veremos.

Um pouquinho de verdade

12 Setembro, 2009

A vigente divisão de trabalho, que procura erguer já não a pirâmide da verdade, mas certamente um aglomerado de edifícios urbanos, foi determinante para a perda de uma visão holística sobre o conhecimento. Nenhum cientista contemporâneo pode acompanhar os achados contidos nos papers de cada facção da verdade. Até mesmo o filósofo, guardião último dos conceitos mais fundamentais, se vê compelido à atual onda de especialização, que, por sua natureza, vem desenvolvendo uma porção de sub-filosofias, a despeito de seus prós e contras. Como conseqüência desse fenômeno social, estudado de forma tão embrionária pelos sociólogos da ciência, perdemos a noção do que seja afinal de contas a própria ciência. Uma curiosa demonstração desse acontecimento está presente em qualquer projeto de pesquisa, quando o cientista justifica o vazio científico a ser preenchido por alguma descoberta, além do método que o conduzirá na tarefa de tapar aquele buraco. A metáfora de Nietzsche nunca foi tão válida. O cientista constrói pedra por pedra uma ponte para atravessar o rio. No outro lado está a verdade. Olhando para ela, o filósofo até utiliza algumas pedras, mas logo por elas salta. O salto é a ousadia necessária para o filosofar. Não consigo imaginar divisão de trabalho no salto filosófico. Talvez o trabalho duro da ciência se permita equiparar ao regime de cooperação de uma organização. Ao contrário, a filosofia está mais para uma ágora. Não se enganem, apenas o baixo clero científico opera o serviço braçal, porquanto a mais alta ciência também pode ser reduzida a um mero debate político. Do núcleo de cada teoria podemos extrair nada mais do que uma intervenção agorística. Os gigantes da ciência se perdem e se encontram no eterno debate sobre as meias verdades – um bom jogo da segunda divisão. Há uma surpreende filosofia da ciência para ser feita, à luz do fenômeno nosso por propriedade e por excelência: a internet.