Arquivo de Novembro, 2009

El fin

16 Novembro, 2009

De repente fui pego portando uma xícara de café. Assalto à mão armada. A manhã era de primavera, mas o café estava quente feito verão no inverno. Que saborosas as primeiras horas da manhã! Quanto mais recheadas com manteiga e cobertas por puro silêncio. Só o silêncio e estava tudo quase perfeito em São Paulo. A cidade tem vida, pulsa cultura. Mas o barulho é de, às vezes, golpear a estima. Tenho escrito um pouco. Que é pouco? me há de perguntar alguém. Toda medida ganha sentido apenas e somente apenas quando comparada. Assim é o centímetro comparado ao metro; assim é sol e lua, o dia e a noite; assim é Celso, fará night? Enfim… – minha comparação é com o futuro. Pois jamais escrevi com tanta freqüência. E no próximo ano, ao que tudo indica, a freqüência se elevará a proporções inimagináveis.  Fosse comparado ao passado, diria: estou escrevendo muuuito. Mas o que é o passado, esse conjunto de hojes que permaneceram em um conjunto de memórias? Muito em breve, aquelas memórias deixarão todas de ser, e aquele passado específico já nunca existiu. Enfim… – uma alma errante bem podia também me indagar indiscreta: mas se você tá escrevendo tanto, por que não posta mais? Filho meu, a maturidade tem a única serventia de ensinar que as coisas são menos simples do que aparentavam. Mentira. Mas a gente costuma contar essa mentira para os fracos não se suicidarem em massa. Enfim… – as coisas que tenho escrito não são do tipo que se publica em blogs. São textos acadêmicos ou teóricos-não-acadêmicos, se é que me entendem, e é claro que não entendem. Também alguns textos literários engavetados virtualmente dentro do hard disk. Por lá devem ficar de castigo, até aprenderem a ser feliz na solidão – o destino certo dos corpos encaixotados no submundo. É hora de tomar o último gole. De repente o café esfria e tudo terá acabado. Mais uma vez, a verdade será dita não em princípio, mas em fim.

Paradoxo da competição

4 Novembro, 2009

A Karl Polanyi

Livre-merado é a utopia de um mercado sem regulações institucionais. É o sonho de um espaço de trocas de mercadorias (produtos, serviços, dinheiro) em que os atores econômicos – ausentes dos constrangimentos de leis, governos e corporações – possam competir entre si. Supõe-se que a alocação natural dos recursos, em um tal mercado, levaria a uma melhor distribuição dos bens. Isto diz, no canto do ouvindo, que haveria abundância e igualdade de riqueza entre os players do game. Ao nível teórico, a tese é contestável. Ao nível empírico, jamais teremos dados para verificá-la. Não passa de uma u-topia ou de um modelo matemático. O livre-mercado existiria apenas em condições artificiais: precisaria de quem regulasse a não-regulação, ou seja, de quem impedisse as instituições de regularem os competidores. Mas esse alguém não competiria? Parece evidente que, se o competidor é estrategista, se ele é “racional”, nos termos da microeconomia, não gastará tempo impedindo a regulação. Ao contrário, usará a regulação a seu favor, desviando dos constrangimentos e manipulando-os contra seus adversários. Por isso, aquele que defende o livre mercado não é, ele mesmo, um bom competidor. Se, por algum motivo, alguém fosse capaz de instituir um livre-mercado, essa pessoa não poderia competir. Deveria, ao contrário, lutar e garantir a ausência de regulação, pois, do contrário, deixaria a regulação livre para voltar à cena. Livre-mercado é como um princípio e um fim, como o reino comunista, dessas coisas jamais existentes, mas orientadoras de alguns espíritos bem assombrados.

O ufonauta para juventude

3 Novembro, 2009

Para a mocidade que ouvia com gosto os Strokes, a notícia soa bem: álbum novo do Julian Casablancas na praça. O músico buscou elementos outros para distanciar a sua música dos hits da sua banda. Não foi longe. Continuam aqueles solos de guitarra acompanhando o vocal, ao estilo Is this It. Continuam as batidas quebrando ligeiras na caixa, com menos variação, porém, donde escapa uma impressão mais assim… eletrônica. Uma impressão fortalecida pelo exagero no teclado. Aquele vocal abafado e distorcido permaneceu em algumas músicas, como River at Brakelights, Glass e Out of Blue. Mas não foi suficiente para garantir o estilão roqueiro. Os alongamentos vocálicos (leia-se, os gritos) foram substituídos por um canto mais doce – e pop. Da primeira a última música, um clima space-based acompanha as melodias. Algo não necessariamente cibernético, mas certamente espacial, às vezes remetendo o ouvindo a dimensões dignas de um ufonauta. Não à toa, a oitava e última faixa se chama 11th Dimension – uma música para tocar na balada. Sabe lá qual foi a inspiração de Julian, se apenas a fixação por teclado, tentativa de 80’s revival, experiências com yôga ou real necessidade de viagem astral. A quem desejar possa, o álbum deixa margens de inspirações country, latinas e até R&B, todas elas sintetizadas no título. Phrazes for the young, para confirmar a tese de Oscar Wild, que em 1894 escreveu: ser prematuro é ser perfeito.