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O HÓSPEDE

15 Janeiro, 2009

Já faz três anos que Rafael entrou para o Partido. Desde então, ele viaja quase todo mês a congressos e reuniões de estudantes políticos. Uma rotina cansativa, mas, com o mundo em jogo, considerava um compromisso digno. Para além das viagens, havia também a tarefa de hospedar companheiros do Partido em seu apartamento. Não era exatamente o meu caso. Sim, eu estava caridosamente alojado na casa de Rafael, todavia meu objetivo era tão somente prestar os exames da faculdade. A falar sinceramente, embora jamais tenha dito, sinto que Rafael não gosta de receber hóspedes. Para seu infortúnio, além de mim, estava por chegar um companheiro. Para saber de quão longe vinha, observem como Rafael me falara, antes das 20h, que o companheiro já estava no voo, mas só aportaria às 5h.

- “O quê?! Você vai acordar para buscá-lo?”, perguntei fingindo espanto.
- “Claro. Eles sempre me buscam quando estou lhes visitar.”, explicou.
- “Rafael, eu posso ir com você…”
- “Não se preocupe. Quando você acordar já estaremos nesta sala conversando sobre o país”

Será que eles precisavam ficar algum tempo sozinhos para conversar assuntos sigilosos do Partido? Estaria atrapalhando os planos, ou, talvez, ao contrário, devesse eu oferecer-lhes algum tipo auxílio? Certo estava de que não queria me tornar cúmplice de alguma ação política. Algo precisava ser feito, mas não sabia o quê. Permaneci me sentindo um parasita desfrutando o apartamento do jovem amigo sem retribuição alguma. E enquanto meus pensamentos relutavam contra um pesadelo que insistia em vencer a vigília, o coitado do Rafael continuava trabalhando incansavelmente em seus relatórios.

Toda a angústia daquela noite me fez despertar repentinamente, e com algum sentimento de susto, provavelmente provindo dos pesadelos. Sem os óculos, busquei alguma luz e, infelizmente, fiquei mesmo perdido no tempo, sem conseguir enxergar as horas no relógio. A única coisa que pude ver foi Rafael no sono mais profundo. Neste momento, lembrei do quanto eu lhe devia por me deixar dormir em sua casa, mesmo causando tantos transtornos. Decidi-me sair em silêncio para finalmente saber em que período da madrugada estávamos. E, para piorar ainda mais aquela situação, descobri que já eram 4h. Faltava, portanto, apenas 1h para o companheiro pousar, do que me resultaram apenas duas opções: ou bem acordava Rafael, para ele buscar seu companheiro, ou bem iria eu mesmo até o aeroporto. Por tudo que estava acontecendo, certamente tomei a decisão pela segunda alternativa. Caminhei, na ponta dos dedos, até a sala, retive em mãos as chaves do apartamento e do carro de Rafael, e me dirigi até o elevador, em direção da garagem. No caminho, mais uma vez meu coração palpitou de medo. Teria o carro combustível suficiente? Caso não tivesse, haveria algum posto aberto a essa altura da madrugada? De tanto tremer em minha mão, a chave caiu no chão. Foi quando lembrei que não sabia dirigir. Havia, não muito longe, um ponto de ônibus – a minha solução.

Aquele ponto, mesmo ficando no final da rua, já pareceu ser mais perto. Não que eu tivesse problemas em caminhar, mas nada apontava ser muito seguro andar sozinho de madrugada. Avistando o ponto, percebi que já havia alguém lá esperando o ônibus. Pensei em cumprimentar aquela pessoa. Melhor não: havia a possibilidade dela também estar sentido medo. Evitei, pois, olhar diretamente no seu rosto, e mesmo assim nós nos reconhecemos. Amanda era namorada de meu amigo Rafael. Que surpresa! Mas, ora, que estaria fazendo? Não era para ela estar lá, ainda mais numa hora daquelas. Perguntei-lhe decidido: “para onde você vai?” e ela respondeu que estava esperando… “Você estava esperando por mim?”, continuei a indagar. Demorou a responder, e me olhou com um sorriso leve: “Estou esperando pelo Rafael”. Foi isto o que ela me explicou. Cogitei algumas hipóteses simples, das quais apenas uma pareceu plausível, a de que Rafael teria agendado que a buscaria no ponto de ônibus para irem juntos ao aeroporto. Fato que haviam algumas contingências nessa suposição sobre as quais preferi nada questionar. Simplesmente, convidei para que fôssemos até o apartamento chamar Rafael.

- “Mas se acordarmos Rafael, então preciso trocar de roupas. Ele odeia quando eu me visto como Criança, com esses babados verdes”, hesitou Amanda.

Compreendi imediatamente a necessidade. Ela iria se trocar, enquanto eu tentaria acordar Rafael. Não foi difícil acordá-lo, e ele nem despertou assustado. Ao contrário, acordou bastante feliz, de maneira logo que ascendeu as luzes da casa iluminando todos os cômodos, para depois tomar banho. Agora estava tudo acertado. Os dois iriam, em tempo, ao aeroporto. Com isto, sorri para Amanda, que estava trocando de roupas, e desci novamente até a rua, onde encontrei vários amigos no bar em frente ao prédio. A agradável companhia deles me fez bem, e o papo estava tão descontraído que mal percebi Rafael entrando. Onde estava com a cabeça? Eu havia me esquecido de lhe entregar as chaves do carro. Em seguida, Rafael despediu-se com a cordialidade que lhe é pertinente de todos os meus amigos, para então buscar seu companheiro. Eu já não conseguia me lembrar da dívida e nem sentir a culpa de antes. Aquele momento singelo me fez notar que a casa de Rafael era a prisão da qual somente ele podia me libertar.

Surpresa da Dra. Estér

2 Outubro, 2008

Observe, leitor, um pequeno prédio e, ao seu lado, um terreno vazio: este servia como campinho de futebol, enquanto a construção abrigava um campus universitário. Aquela senhora que estacionou o carro se chama a Dra Estér, coordenadora do curso de administração. Você pode notar, em seu penteado à moda antiga, uma senhora formal e vaidosa. Ela faz isso todo dia: abre o porta-malas, retira… É verdade, quantos livros! Dra. Estér insiste em mantê-los organizados; sempre em vão, pois as curvas jogam os de marketing pra cá, os de planejamento pra lá. Tomou em mãos o necessário para as aulas, e, mal fechou o carro, já havia alunos a cumprimentando. Fingia ignorar, desprezando a fama; respondia breve e sem empolgação, e no fundo tanta bajulação era condição existencial. É o momento de dizer que professora era bastante sensível, de modo que, antes mesmo de pisar na calçada, percebeu uma criança sobre o muro do campinho que curiosamente a espiava. Novamente, fingiu ignorar. E talvez conseguisse, não fosse a cena se repetir ao dia seguinte.

“O que eles querem?” – indagava-se. Apenas sabia da criançada que gostavam de brincar e jogar futebol. Não fazia idéia se eram pobres ou não, se estudavam ou se tinham mãe. Tentou escavar em sua memória alguma notícia sobre os pequenos. Lembrou de quando um menino parecia estar batendo na amiguinha. Nenhuma outra informação vinha à mente. “Seria o mesmo menino que me espiava? Teria suspeitado meu incômodo?” As suposições tomaram conta de seus pensamentos a um ponto tal, que, à noite, ela corajosamente afirmou ao seu esposo: “Vou falar com ele amanhã”. Achava realmente necessário tirar aquelas dúvidas, entender todos os motivos e planos das crianças.

Chegou mais cedo que o costume. Do carro não pôde ver criança nenhuma; isto, porém, não provocou sentimentos de alívio; ao contrário: agravou a incerteza. Espera aí! A garotada estava lá, sim; uma menina entre dois rapazes, brincando. Agora Dra. Estér se encheu de bravura, caminhou elegante em direção ao muro:

- “Garoto, não se apóie desse jeito na porteira!” – e, antes que o menino pudesse reagir, emendou: “Por que vocês estavam espiando?”

Seria esta a postura que a coordenadora deveria assumir? Porque, veja bem, deixar as crianças sem ação poderia desfavorecer seu propósito, o de descobrir toda a verdade, tanto que o menino não respondeu. Os dois garotinhos, aparentemente mais novos, procuraram os olhos da amiguinha. Esta, também sob efeito do susto, recuou sem iniciativa. Foi neste instante que o arrependimento passou perto da professora. Na medida em que sua feição mudava, tornando-se mais amigável, as crianças se recompunham do pavor inicial. Bastou para que um dos meninos, o mais grandinho, respondesse:

- “Queremos saber o que é esse prédio, por que tanta gente entra e sai”, explicou gesticulando e temerário.

Uma singela curiosidade: era isso que perturbava o espírito da professora. Nada havia de travessuras. A sinceridade e a pureza com que o garotinho confessou seu desejo tocaram levemente o coração da professora. Bastante arrependida, examinava as crianças com novos olhos. A desconfiança deu lugar à ternura, como se fosse ela quem as espiasse despudoradamente.

***

Alguém acredita na piedade da Dra Estér?!

Não percam no próximo post o final do conto.

Surpresa da Dra Estér

29 Setembro, 2008

Este post foi atualizado e movido para cá.