A idéia do texto abaixo surgiu, digamos, para atrapalhar o meu plano de leituras para esta tarde. Antes que a perdesse, materializei-a, de maneira não tão material, convenhamos, nos bytes deste blog. Relendo o texto… – será que todo blogueiro posta sem reler? – confesso que me soou de um clichê sem tamanho. O tal insight é tão óbvio que nem merecia sequer um parágrafo. Bastaria um sorriso de canto, indiferente e indignado. Mas, como sempre há de ser, quem sabe algum leitor desesperado aporte por sobre os comentários, querendo negar a proposta tese. Só não me venha, por obséquio, defender que o jornalismo político é de qualidade inquestionável.
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25 Agosto, 2009Minha crítica aos jornalistas
25 Agosto, 2009De tanto insistir, muitas vezes sob o silêncio dos leitores, na tragédia do jornalismo político brasileiro, comecei a delinear, ainda que de maneira superficial, o escopo de minhas críticas. Como é possível que jornalistas tão bem formados, possuidores de tão nobre cultura, escritores de mão cheia; como podem compreender com tal amadorismo a dinâmica política? Estou a falar não apenas da competição eleitoral; refiro-me, sobretudo, ao cotidiano gerencial do Estado, à relação entre os poderes constitucionais, às nomeações para cargos políticos e executivos, à formulação, estratégias e avaliações de políticas públicas. O que explica as reportagens tão infundadas que lemos diariamente na imprensa? Não que o assunto seja dos mais simples. Sua complexidade, de fato, exige uma capacidade própria de análise. Minha hipótese é a seguinte. Os jornalistas são treinados a analisar os processos de comunicação e não seu conteúdo. Entenda.
Aqui utilizado, o sentido de análise é específico. Refere-se ao sentido latino, para os lingüistas, ou kantiano, para os filósofos. Analisar é separar o todo em partes. É desse modo que o termo análise costuma ser entendido na filosofia da ciência. Quanto mais um conceito é divido – quer pelos diversos ângulos sob os quais se deixa revelar, quer pelas pressuposições teóricas que dele se pode extrair -, tanto mais significativo e útil ele se torna para o conhecimento. Cada área do saber possui teorias e métodos que servem, de algum modo, como referenciais analíticos. São como instrumentos que permitem olhares reveladores sobre um determinado assunto. Quem os possui consegue facilmente obter conclusões, evitar erros e colocar um ponto de partido para examinar o campo de estudos. Aqueles que não possuem referencial analítico só podem chegar aos mesmos achados por intuição ou por de antemão já terem se informado a respeito das respectivas conclusões, falhas ou abordagens.
Defendo que o jornalista é um profissional, por habilitação, munido de referencial teórico para analisar o processo de comunicação. Teorias e métodos para examinar as especificidades da linguagem escrita, visual e sonora estão presentes nas grades curriculares dos estudantes de jornalismo. Este tipo de conhecimento específico, não há dúvidas, se encontra presente nas demandas operacionais de um jornalista profissional que revisa textos, escolhe imagens, diagrama páginas, fotografa cenários ou produz cenas em movimento. Não haveria de ser diferente. Se até aqui o leitor concordou com a minha explicação, entendemos que o jornalista é capaz de analisar o processo de comunicação. No entanto, e este é o ponto central, há uma diferença entre o processo e o conteúdo da comunicação. Por razões alheias ao objetivo deste texto, creio que a grande maioria dos jornalistas está inábil para comunicar os acontecimentos políticos, justamente porque não compreendem a política propriamente dita.
Da mesma forma que existe todo esse conjunto de referenciais analíticos para que um ser humano possa entender de forma suficiente a comunicação social, também há uma série de teorias, métodos e pesquisas para se compreender a dinâmica política. Teorias estas, como na ciência da comunicação, com perspectivas as mais plurais. É estudando esse campo do saber, a ciência política, que ficamos informados sobre ramos do saber, tais quais teorias políticas, política comparada, políticas públicas, sistemas eleitorais entre outros. E cada um deles se mostra para o estudioso por meio de abordagens diferentes, seja começando pelo olhar histórico, seja pelo matemático. E toda essa complexidade de conhecimento, que se aprofunda a partir da análise de conceitos, está muito distante do mundo em que o jornalista costuma ser formado. Para concluir, diria que o profissional jornalista requer uma formação interdisciplinar que se afunile para uma especialização temática.
Produtividade no setor público e no setor privado, a pesquisa do IPEA
25 Agosto, 2009A FENEAP e boa parte da mídia divulgaram a recente pesquisa do IPEA sobre a produtividade nos setores público e privada. Os resultados espantaram o leitor atento: em 2006, o Estado foi 46% mais produtivo do que o mercado. Ué, como é possível medir? Na verdade, não é possível.
A metodologia desse estudo é absurda. Marcio Pochmann assumiu que:
Produtividade = Execução Orçamentária / Ocupação do Trabalho.
Ou seja, ele tentou de modo equivocado transpor o conceito da economia industrial para a complexa realidade dos serviços públicos.
Disso concluiu e divulgou para mídia despreparada (um assunto já batido por aqui) que Estados que buscaram modernizar a gestão, como Minas Gerais, foram menos produtivos. Sei…
O fato é que tanto Estado como o Mercado são dois espaços gigantescos de produção e repletos de setores cujas especificidades de maneira alguma podem ser compiladas em pacotes, e esses pacotes nem menos podem ser ancorados sobre uma balança para compará-los.
Um Estado que demanda mais segurança pública ou educação, por exemplo, certamente requer mais funcionários do que um Estado cujo dilema é incentivo ao desenvolvimento turístico. Não é como uma indústria. A questão não é lucro versus número de funcionários, nem Execução da Receita versus Servidores Públicos, como sugerido pelo IPEA.
O raciocínio de Pochmann (quanto menos funcionários e mais execução orçamentária, tanto mais produtivo é o Estado) não é válido. O proposto indicador de produtividade não é útil para nada, não é parâmetro de comparação com nenhuma outra informação; eis, portanto, vazio em seu significado: uma armadilha numérica. Não importa que tenha coletado os dados sobre a ocupação de trabalho no setor público do IBGE, pois a pesquisa está equivocada desde sua concepção, desde o esquema “Orçamento Executado / Número Funcionário = Produtividade”.
A repercussão da notícia em uma série de listas de emails e comunidades virtuais, a meu ver, reflete a falta de senso crítico na leitura, até mesmo de universitários capacitados em áreas de ciências sociais aplicadas. Sinaliza também (não esqueçam!) a irresponsabilidade de um instituto oficial divulgar uma tão descabida pesquisa.
Upgrade: A discussão se expandiu para o blog da jornalista Miriam Leitão, aqui. Confira o que o técnico do Ipea revela nos comentário de um outro blog, de Cristiano Costa. Neste fórum, a confusão na discussão continua aparente.
Upgrade 2: Equipe do Senador Tasso Genro entra no ringue.
Educação e Jornalismo
23 Agosto, 2009
Basta ler as duas últimas Épocas para observar a relevância atribuída à política educacional e à gestão escolar. Não se trata de um detalhe. Na última edição foram 16 páginas de reportagem especial.
Em foco estava o Enem. Seleção para universidades chegando, assunto em pauta. Quando li, a vontade imediata foi criticar a reportagem pelos erros, pelo consultor entrevistado, pelas explicações inválidas sobre a diferença entre os estados. Falta qualidade na análise. E é perigoso quando isso acontece. Porque os números confortam de algum modo o leitor, porquanto sua análise pretende com algum grau de validade científica. Uma análise equivocada causa distorções na informação que o cidadão receberá.
Além disso, avaliações como o Enem são polêmicas. Há alguns setores da política que, às vezes de maneira irresponsável, descem a lenha em avaliações externas. De fato, as avaliações, se mal interpretadas, podem vir a se tornar contraproducentes.
Ainda assim, a reportagem da Época superou as expectativas. E por isto a reação de criticar foi apenas imediata. Logo depois resolvi escrever elogiando e parabenizando a redação. Veja e Época, ainda que concorrentes, as duas revistas semanais enfrentam corajosamente a dificuldade jornalística de comunicar sobre a política educacional, abrindo cada vez mais espaço em suas redações.
Verdade que essas reportagem demandam rigor analítico. Mas estão elas anos-luz a frente das reportagens dos jornais diários. Entre esses, Estadão um pouco, não muito, melhor do que os outros. Em geral são repassadores de press releases. Para tudo há um começo. Ex nihilo nihil.
Reforma Educacional de Chavez
16 Agosto, 2009Se nem o jornalista conhece a estrutura do Estado e a dinâmica da gestão pública, como o leitor comum entenderá as notícias políticas? A reforma educacional em votação na Venezuela poderia ser tema da mais importância. Ou a gente tem acesso a lei ou é obrigado a se contentar com informação desse nível: Estudantes marcham em apoio à reforma educacional na Venezuela.
No fim, o pobre leitor fica sabendo o que o Papa Bento XVI pensa sobre a reforma, fica sabendo da retórica socialista do presidente Chavez sobre os currículos; mas sobre a implementação de facto da reforma, nada. Afinal, não serão nem Chavez nem seu irmão Ministro da Educação que lecionarão as aulas para os alunos. Como a Reforma prevê a delegação de poder, a avaliação de resultados e a prestação do serviço de ensino? É isso que está em discussão em qualquer reforma educacional mundo afora! Qual é a proposta venezuelana?
Sinceramente? … esses jornalistas não fazem idéia.
2 em 1
29 Junho, 2009Semana concorrida no noticiário, e eu aqui quietinho. Antes que o mês termine, permita-me comentar um pouco sobre os acontecimento no mundo. A começar pelo Michael Jackson, tenho que confessar uma coisa. Não, eu não sou fã dele. É quase o contrário. Eu nem imaginava que ele representava TANTO para uma geração. Talvez a morte tenha mesmo essa característica de mensurar o valor de uma vida, como de alguma forma Hannah Arendt deixa a entender, quando fala sobre a imortalidade. O ato de heroísmo e coragem maior seria perder a vida em nome da imortalidade – algo como Aquiles, que deixou a vida tranqüila, o casamento e a felicidade em nome de uma guerra que lhe trouxesse a morte e a glória imortal.
Michael Jackson significava para mim uma pessoa que trocou de cor e que dançava. Nada além disso. Mas a repercussão de sua morte revela mais. Diz-se que ele vendeu mais discos do que os Beatles. E que a Madonna. Isto impressiona. Muito. Perdido em minha ignorância, eu nem sabia que aquela música (descobri o nome, é Thriller) era de Jackson. O cara representou legal uma geração. Mas não representou a geração dos que nasceram, por exemplo, em 86. Não mesmo. Um ou outro gostava ou tornava-se fã. Outlier. Um deles é meu amigo. Veja aqui.
Mudando de assunto, os escândalos no Senado permanecerão durante alguns meses na mídia. É bacana ter mídia em cima do Congresso, não é? Fiscalizando os representantes, noticiando as decisões políticas. Realmente. Porém – e sempre tem um porém, porque sem poréns a vida seria chata – o jornalismo político continua fraquinho. Já foi pior, é verdade. Mas nossos jornalistas ainda conhecem pouco sobre as instituições. Para dar um exemplo, vejam essa pesquisa. De todas as notícias sobre educação, apenas 3% tocam no assunto “orçamento”. Eu já vinha notando isso. A cobertura na área educacional é péssima. A maior parte das notícias que recebo do Globo e da Folha são releases enviados por instituições de governo ou universidades. Notícias como divulgação do vestibular. Só a ponta de iceberg.
Seria demais esperar dos jornalistas conhecimentos sobre o jogo federativo, as relações intergovernamentais, a coordenação da política educacional? Creio que não. Quer dizer que eu concordo com a recente desobrigação dos diplomados em jornalismo exercerem a função? Não necessariamente por isso, mas concordo. A formação do profissional é importante, mas não é critério único de avaliação. As declarações dos jornalistas em algumas redações só afirmam o que todos já imaginavam: caiu uma lei que não era cumprida. Mais ou menos na linha desse texto bem formadinho (escrito, aliás, por uma não-jornalista ainda).
Esse post ficou meio que por desencargo de consciência. Michael Jackson e Diploma de jornalistas em um só post, pra não dizer que não falei. Isto porque o Sarney se livrou desse. Não me entusiasmo em bater no Sarney, como o fazem os blogueiros mais populares. Acho que Sarney tomou a decisão errada há alguns meses, quando saiu candidato ao Senado. Ah, se nossos parlamentares soubassem usar o poder do Congresso…
FREE POSSANTE
19 Maio, 2009Capas de jornais
13 Novembro, 2008Quer ver as capas dos principais jornais do mundo, de forma rápida e dinâmica? Então visite o Museu Interativo dos Jornais. É só escolher o continente e sobrevoar o cursos.
Santa Catarina forma sua primeira turma de bacharéis em Administração Pública
5 Setembro, 2008O título acima parece press release? De fato o é. Estou enviando para os jornalistas catarinenses, divulgando a formatura, à qual convido todos os leitores do blog. Segue:
Na próxima sexta-feira, 19, o Governador do Estado, Luiz Henrique da Silveira, apadrinhará a Primeira Turma de Administração Pública formada em Santa Catarina. A solenidade acontecerá no Centro de Convenções de Florianópolis (Centro Sul), às 19h00. O curso, ministrado na UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina), é marcado por uma proposta pedagógica diferenciada. O objetivo é formar líderes organizacionais para o gerenciar serviços públicos e desenvolver a cidadania.
Para tanto, os estudantes de Administração Pública da UDESC são altamente preparados para atuar, não só na máquina governamental, mas também em organizações sem fins lucrativos e em programas de responsabilidade social empresarial.
A missão do curso nunca foi formar burocratas, mas empreendedores da esfera pública. Profissionais completos, dotados do que há de mais importante num bom gestor público: preparo, pragmatismo, comprometimento e ética.
Existe, em qualquer país desenvolvido, um quadro profissional de gestores públicos qualificados. Nada há de mais estratégico do que investir em uma nova geração para uma nova gestão pública, livre de vícios, com alta capacidade técnica e disposta a escrever uma história bem diferente daquela registrada até aqui.
Educação melhorou, mas pouco
17 Agosto, 2008Não tenho preconceito da Veja.
Ao contrário do “senso crítico” que nos é implantado no ensino médio (geralmente por professoras e professores de história), procuro encontrar na Veja algo mais do que as manipulações descaradas. Não raramente encontro ótimas reportagens. Suspeito ser este o caso da reportagem de capa da última edição. Vejam-na:

Em breve lerei a matéria e voltarei a comentar. Antes disso, urge o seguinte checklist:
- Finalizar a inscrição no mestrado da FGV
- Criar banco de dados de blogs de Floripa
- Terminar e enviar relatório para o Nelson (um dia vocês o conhecerão)
- Procurar editais de mestrados na minha área de pesquisa
Tudo bem. É sábado a noite e tenho muito café e chocolate. See you.

