Surpresa da Dra. Estér

Observe, leitor, um pequeno prédio e, ao seu lado, um terreno vazio: este servia como campinho de futebol, enquanto a construção abrigava um campus universitário. Aquela senhora que estacionou o carro se chama a Dra Estér, coordenadora do curso de administração. Você pode notar, em seu penteado à moda antiga, uma senhora formal e vaidosa. Ela faz isso todo dia: abre o porta-malas, retira… É verdade, quantos livros! Dra. Estér insiste em mantê-los organizados; sempre em vão, pois as curvas jogam os de marketing pra cá, os de planejamento pra lá. Tomou em mãos o necessário para as aulas, e, mal fechou o carro, já havia alunos a cumprimentando. Fingia ignorar, desprezando a fama; respondia breve e sem empolgação, e no fundo tanta bajulação era condição existencial. É o momento de dizer que professora era bastante sensível, de modo que, antes mesmo de pisar na calçada, percebeu uma criança sobre o muro do campinho que curiosamente a espiava. Novamente, fingiu ignorar. E talvez conseguisse, não fosse a cena se repetir ao dia seguinte.

“O que eles querem?” – indagava-se. Apenas sabia da criançada que gostavam de brincar e jogar futebol. Não fazia idéia se eram pobres ou não, se estudavam ou se tinham mãe. Tentou escavar em sua memória alguma notícia sobre os pequenos. Lembrou de quando um menino parecia estar batendo na amiguinha. Nenhuma outra informação vinha à mente. “Seria o mesmo menino que me espiava? Teria suspeitado meu incômodo?” As suposições tomaram conta de seus pensamentos a um ponto tal, que, à noite, ela corajosamente afirmou ao seu esposo: “Vou falar com ele amanhã”. Achava realmente necessário tirar aquelas dúvidas, entender todos os motivos e planos das crianças.

Chegou mais cedo que o costume. Do carro não pôde ver criança nenhuma; isto, porém, não provocou sentimentos de alívio; ao contrário: agravou a incerteza. Espera aí! A garotada estava lá, sim; uma menina entre dois rapazes, brincando. Agora Dra. Estér se encheu de bravura, caminhou elegante em direção ao muro:

– “Garoto, não se apóie desse jeito na porteira!” – e, antes que o menino pudesse reagir, emendou: “Por que vocês estavam espiando?”

Seria esta a postura que a coordenadora deveria assumir? Porque, veja bem, deixar as crianças sem ação poderia desfavorecer seu propósito, o de descobrir toda a verdade, tanto que o menino não respondeu. Os dois garotinhos, aparentemente mais novos, procuraram os olhos da amiguinha. Esta, também sob efeito do susto, recuou sem iniciativa. Foi neste instante que o arrependimento passou perto da professora. Na medida em que sua feição mudava, tornando-se mais amigável, as crianças se recompunham do pavor inicial. Bastou para que um dos meninos, o mais grandinho, respondesse:

– “Queremos saber o que é esse prédio, por que tanta gente entra e sai”, explicou gesticulando e temerário.

Uma singela curiosidade: era isso que perturbava o espírito da professora. Nada havia de travessuras. A sinceridade e a pureza com que o garotinho confessou seu desejo tocaram levemente o coração da professora. Bastante arrependida, examinava as crianças com novos olhos. A desconfiança deu lugar à ternura, como se fosse ela quem as espiasse despudoradamente.

***

Alguém acredita na piedade da Dra Estér?!

Não percam no próximo post o final do conto.

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