Desmistificando o ENADE

Amanhã haverá o Enade. Pelos corredores das universidades não é nenhuma novidade ver pessoas murmurando e pregando cartazes contra a avaliação. Minha vontade sempre foi chegar e perguntar: afinal, por que diabos vocês são contra o Enade? Contive minhas angústias. Mais cedo ou mais tarde, supus, chegaria até mim alguma lista de argumentos. Bingo! Cinco argumentos deles; cinco respostas minhas.

boicoteenade

1. O ENADE é um instrumento de avaliação do “desempenho” dos estudantes. Ocorre que os estudantes são avaliados periodicamente, ao longo de seu curso, através de provas, dissertações, trabalhos, etc. O poder público deveria procurar diagnosticar se os estudantes estão sendo avaliados adequadamente no decorrer de seu curso. Para tanto, deveria haver comissões internas de avaliação de curso, com a participação dos estudantes, para, entre outros pontos, avaliar a organização político-pedagógica do curso, no qual se inclui as formas de avaliação aplicadas nas disciplinas. No entanto, desconsidera-se isso e, em seu lugar, utiliza-se o ENADE, uma prova que nem de longe contempla o conteúdo curricular do curso.

Ninguém é contra avaliação interna dos cursos, ninguém “desconsidera isso”. É algo importante, todo curso deveria possuir uma comissão, sim. Mas este NÃO é o objetivo do Enade. Ao contrário, o Enade quer ser uma avaliação externa. Imagine quantos milhões de reais partem, a cada ano, do Ministério da Educação para as universidades públicas e privadas. A avaliação é só uma das etapas da gestão da política educacional. É curioso ver pessoas que, embora defendam a educação universal e de qualidade, são contras a gestão eficiente da mesma.

2. Além de ter a absurda pretensão de avaliar o “desempenho” dos estudantes – como se fosse possível uma prova aplicada no final do curso refletir o conjunto de avaliações pelas quais os estudantes passaram ao longo de 5 anos – o ENADE é uma prova padrão nacional. Ou seja, o poder público desconsidera completamente o fato de o Brasil ser um país de dimensão continental, com uma diversidade social, econômica e cultural enorme, e que a organização pedagógica dos cursos superiores no Brasil é – é deve ser – influenciada de maneira determinante por essa diversidade.

Qual o problema de ser uma prova padrão? Existem diretrizes básicas para todos os cursos de ensino superior do Brasil. Existem metas de aprendizado para os alunos se formarem. A prova deve ser padronizada justamente para medir as deficiências de alguns cursos. É evidente que cada região possui particularidades sócio-culturais. Mas, pelo amor de Deus, isso não tem nada a ver com o exame. Em nenhum curso os alunos aprendem exclusivamente tópicos locais. Sinceramente, no geral este é um argumento válido. Existem problemas pontuais com as provas. Por exemplo, um aluno de Administração Pública deveria ter uma prova específica para o seu curso, enquanto atualmente faz a prova no mesmo barco da Administração (empresarial). Esses problemas precisam ser corrigidos, é fato.

3. Cada curso avaliado no ENADE recebe um conceito, em uma escala com 5 níveis (A, B, C, D e E). Forma-se então um ranking, amplamente divulgado pelos veículos de comunicação. Além do fato de só ser divulgado o resultado do ENADE, boicotando os resultados dos outros instrumentos de avaliação, o “ranqueamento” dos cursos avaliados induz a competição irracional na educação. Trata-se de uma política produtivista que obedece à lógica, já desmentida, de que “o mercado se auto-regula e a auto-regulação do mercado garante a qualidade dos serviços”. A conseqüência dessa política é exclusivamente a legitimação de cursos de má-qualidade, que estampam a nota “A” em suas peças publicitárias, enquanto no mundo real as condições de ensino continuam precárias, isso quando não pioram.

Eita, que confusão! Em primeiro lugar, ranquamento dos cursos deveria ser incentivado, porque gera uma concorrência saudável por melhores níveis educacionais. Se o mercado auto-regulasse a qualidade dos cursos, não seria necessário o Enade. Se acontecesse essa auto-regulação, o próprio mercado avaliaria os cursos e selecionaria os profissionais dos melhores, tendo como conseqüência o abandono dos piores. Não é o caso. E existe uma diversidade de motivos para isto. Primeiro, muitos cursos interessam pouco ao mercado – as humanidades, por exemplo. Segundo, nem sempre as empresas estão próximas da universidade ao ponto de conseguir avaliar a qualidade de seus cursos. No fim das contas, o ranqueamento dos cursos acaba sendo vantajoso para os vestibulandos, que possuem alguma informação na caótica e delicada tomada de decisão de ingressar numa carreira. Isto acontece em qualquer país decente neste planeta. Nos EUA, além do próprio governo, existem diversas avaliações privadas advindas de revistas, institutos.

4. Com o ENADE mais recursos são direcionados para os chamados “centros de excelência” – cujos cursos supostamente têm melhor desempenho com o ENADE – e menos recursos para as demais universidades públicas – com pior desempenho. A lógica punitiva inerente nesta política é burra, ainda mais quando se leva em conta que os cursos com pior desempenho o tiveram não porque seus estudantes são menos inteligentes, mas por conta da precariedade das condições de ensino. Portanto, o propósito é punir com menos recursos justamente aquelas universidades que mais precisam de recursos para garantir ensino de boa qualidade para os estudantes.

Ainda que seja estratégico para o País haver núcleos de excelência em pesquisas, não é isso que ocorre. O governo federal – evidentemente – só decide sobre os recursos das universidades federais. Logo, ficam de fora desse suposto controle as universidades públicas estaduais e municipais, além das privadas, das fundações, dos institutos de pesquisa etc. E mesmo nas universidades federais isso, ainda que fosse muito desejável, não ocorre. Grande parte dos recursos destinados ao ensino superior é verba carimbada para a folha de pagamento de professores e funcionários. O governo federal faz repasses mensais na cotação orçamentária de cada universidade, e a própria universidade distribui os recursos entre os centros e departamentos. Portanto, o argumento quatro não passa de um mito.

5. Como se não bastasse tudo isso, muitas universidades organizam cursinhos gratuitos pré- ENADE para seus estudantes, muitas vezes coagindo-os a comparecer às aulas no cursinho. Ou seja, se os cursos oferecem um ensino de boa qualidade, o qual compreende de forma adequada as diretrizes curriculares e as demandas da região ou do local onde o curso é oferecido, por que motivo patrocinar cursinhos? As universidades só gastam dinheiro com cursinhos porque o curso não oferece as bases sequer para o estudante fazer o ENADE, caso contrário elas não o ofereceriam.

É louvável a intenção dessas faculdades querendo ser bem avaliadas, mas não adianta remediar. Concordo que mais vale buscar excelência no ensino para seus alunos tirarem de letra o Enade. O exemplo da minha faculdade – ESAG/SC: possui 9 (nove) A’s consecutivos e nunca fez cursinho.

Considerações: ao que parece, existem muitos problemas específicos com as provas do Enade. Contra isso, sim, devemos lutar. Lutar não, sugerir civilizadamente alterações para o Inep, órgão ligado ao MEC responsável pelo Enade. Muitos cursos deveriam ter uma prova específica.

Atualização – Domingo: Já é hora de sair de casa para fazer a prova, em vez de ficar aqui discutindo sua relevância, mas vou colar aqui em baixo as respotas que o Daniel (dono da comunidade UFSC no orkut) para o Popol Vu (o autor dos cinco argumentos contra o Enade). Segue:

1. Já começa com “desempenho” entre aspas, lá vem. Como o Leandro disse no seu blog o cidadão não entende o que signifique uma avaliação externa. Como saber afinal se o curso está buscando atingir objetivos para além daquilo que os seus professores, coordenadores e estudantes imaginam que sejam os objetivos de uma universidade? E mais, por que uma avaliação assim excluiria outros tipos de avaliação? Uma coisa não exclui a outra Popovú! E mais!!! Como que não contempla o currículo do curso? Acho que essa afirmação deveria ser melhor especificada. Dizendo exatamente o que não contempla e se ela deveria de fato ter que contemplar a maior parte dos currículos dos cursos das diversas faculdades do Brasils para ser válido. Isso aí, imagino, o sindicato não informou ao Popuvúúú!!

2. Puxa vida, como que não se pensou nisso! Justamente os marxistóides que estão no governo nunca pensaram nisso! Meu deus! Os experts nesse discurso batido não lembraram disso, jézuis?! Veja bem, caríssimo, Pupuvú, se os cursos têm autonomia para ensinar o que quiserem, o que será que vai acontecer com o ensino no Brazil? Quer dizer, o sujeito na Bahia aprende a matemática bahiana, onde 1 + 1 = -1; já no Rio Grande do Sul é outra matemática que precisa levar em questão toda a situação sociológica, histórica, ontológica do povo gaúcho, por tudo isso que se chega a conclusão que 1 + 1 = 3. Agora vem uma prova padronizante, padronizantista como esse ENADE querer dizer que 1 + 1 = 2!!!! Absurdooo!!! Greve Geral! Pupuvu, pupuvu! Que diversidade torta é essa Pupuvu?

3. Ora qual o problema de se divulgar as pesquisas feitas nacionalmente? Ah, você queria que se divulgasse na folha de Sâo Paulo os mecanismos de avaliação produzidos pela C.A. do seu curso, ou pelo DCE, ou por algum departamento de algum curso superior? E mais! Qual o problema de haver concorrência entre as faculdades de maior prestígio?! Imagino que até entre os marxistóides da vida haja uma competição: “eu queria ir para Cuba, fazer medicina lá, lá é fera!”, “já eu não, eu ouvi dizer que Vanezuela é que o bicho pega, lá é medicina chavista, coza de outro mundo”, “e eu que me formei em medicina na Universidade Sindicalista da URSS!!!”, “óóóóóóóóóó!!!!”. Ecziste concorrência e faculdades melhores e piores no mundo inteiro. Isso é pecado por quê?

4. Tem que avaliar caso a caso e ver se em certas universidades não se está simplesmente queimando o dinheiro e rendendo muito abaixo do esperado. Qual o problema de incentivar os centros de excelência? Nenhum. Servem de modelos para os demais. Atraem os melhores estudantes, os melhores professores e se mantêm no alto nível. Enquanto os outros se queixam das más condições e quais são as contra-partidas? Querem os benefícios sem contra-partida?

5. Será que é tão reprovável assim organizar um cursinho preparatório para o ENADE? É uma oportunidade de revisar conteúdos, de analisar o tipo de questão exigida e treinar a resolução desse tipo de questão. Muitas vezes pode ser o caso dos acadêmicos não estarem acostumados como certo tipo de questão. Então têm a oportunidade de produzir textos, serem corrigidos, discutir, etc. É mais uma oportunidade de aprendizado, de revisão. Não cursinhos para OAB? Por que seria tão reprovável no caso do ENADE? Não vi um bom argumento. E digo mais, que tosqueira é essa de dizer que a universidade tem que estar direcionada para os interesses de uma comunidade específica. Pelo amor de deus. Essa aí deve ser a universidade do MST. Os caras partem de cada premissa que ninguém aceita para concluir uma porção de no-senses.

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2 Respostas to “Desmistificando o ENADE”

  1. Táia Says:

    Eu vou boicotar. Acho Enade uma prova tão burra quanto o vestilbular: ambos não provam nada. Como o vestibular, o Enade objetiva avaliar anos de aula em horas de prova. Isso é patético. Além do mais, concordo com o panfleto que chegou até você: se um curso vai mal, o sensato não seria cortar verbas, mas estudar o problema e, se necessário, injetar mais investimentos na instituição. Tenho orgulho da UFF, que boicota massivamente essa prova babaca, com o perdão da palavra.

  2. p Says:

    boicote neles!!!!
    por um novo sistema de ensino

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