A última visita (jamais será lembrada)

Entranhas da subjetividade! Seja bem vinda. O que diria minha mãe se te visse por aqui? Logo tu, que és duvidosa para mim, e tão certeira para os outros! Deixemo-la com suas plantas espirituais. Senta-te, por favor. Diga-me por que vieste. Causou-te alguma indignação minhas recentes elocubrações? Foi o blog? Mal lembro da última vez que me visitaste. Eu estava diferente, era jovem e vivia por sonhos luminosos. Para onde foram aqueles sonhos? Não que eu tenha sentido falta. Eles me sempre foram indiferentes, tu bem sabes. Já tu, ao contrário, sempre gostou de cultuar essas nulidades – é o que dizem. Ah, é verdade, eu nunca me importei com o que dizem. Mas sei que todos te conhecem melhor do que eu. Aliás, todos conhecem mais de tudo. Não foi exatamente nisso que me forçaste a acreditar? E o que ganhaste com isso, além de me perder? Induziste-me a acreditar em menores instantes, como se cada segundo pousasse aliviado entre a vida e a morte. O quanto demorou para que eu me desse conta! Insignificâncias não levam a nada. Se levam, levam a própria morte contra a qual se dirige. Desculpe, fica com teus ritos. Já me uni com a objetividade. Vivemos, eu e ela, em harmonia sem volta. Não, não que eu tenha me vendido. Muito pelo contrário. Na objetividade eu nem sequer possuo um valor. Na objetividade eu nada sou. Contigo, eu apenas me iludia que era. Agradeço a visita, não volte jamais. Mande lembranças para os meus amigos, ao ventre materno das intimidades, aos sentimentos do coração. Não sentirei saudades.

E o “eu” se desfez, para nunca mais referir-se em primeira pessoa. Deixou saudade em seus amigos, mas não muita. Quando constatou o efeito colateral, o de que a objetividade também ilude, então “eu” pensou em voltar, não encontrando as pegada de volta. Tentou lembrar, com todo o rigor científico, uma dezena de vezes a subjetividade. Uma névoa rasteira impediu-lhe toda a antevisão. Antes questionou sua existência. Agora perambula, sem notícias, questionando sua não existência. Isto não provou que ele existe. Mas remeteu a um paradoxo eterno e sem retorno.

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Uma resposta to “A última visita (jamais será lembrada)”

  1. Leandro Damasio Says:

    Acho que a moral da história é: nunca busque a objetividade para provar a subjetividade.

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