Após oráculo, pés no chão e solidão.

Enquanto o céu continua chorando, e as gotas suavemente se derretem para sentenciar vidas catarinenses, eu me deparo com a sombra de um problema metodológico. Tudo começou quando, ontem, consultei meu oráculo. Um oráculo com nome e sobrenome: Cláudia Drucker, minha orientadora de monografia.

A bem da verdade é que estávamos com os ponteiros desacertados. Ela não entendia por que, afinal das contas, eu queria tratar da imortalidade, se a filosofia política de Hannah Arendt coloca, ao contrário, o nascimento, e não da morte, como centro das questões.

Expliquei-lhe, baseando no terceiro capítulo da Condição Humana, que imortalidade é entendida como sinônimo da busca da fama na história. E que a compreensão de morte, para os antigos gregos, não é apenas da finitude da vida, mas a inveja dos deuses. “Inserida num cosmo onde tudo era imortal, a mortalidade tornou-se o emblema da existência humana”.

Que frase mais decisiva! Os homens são os mortais. Não somente aquela frase, mas também esta: “por sua capacidade de feitos imortais, por poderem deixar atrás de si vestígios imorredouros, os homens, a despeito de sua mortalidade individual, atingem seu próprio tipo de imortalidade e demonstram sua natureza divina”.

É uma tese defensável, sem dúvida. Mas é preciso cautela. Uma monografia não deve ser genial. Deve se ater ao rigor metodológico. O que é de opinião da Hannah Arendt precisa ser claramente distinguido do que era um fato indibitável da antiguidade e do testemunho grego. O que ela realmente diz deve também ser claramente diferenciado do que é uma interpretação que eu lhe atribuo.

O ensinamento não foi senão franco: na dúvida, a prudência. Ou seja, melhor trocar os títulos dos capítulos. Em vez de sair chutando o balde, falando em Imortalidade e Metafísica (no sentido heideggeriano enquanto nascimento da filosofia política), melhor será usar “A BUSCA PELA FAMA IMORTAL NA ANTIGUIDADE HELÊNICA” e “A RECUSA DESSE IDEAL”. E assim será. O terceiro capítulo com a mesma simplicidade e clareza poderá se chamar “TESE DE ARENDT SOBRE A CATEGORIA DO NASCIMENTO” – aqui entrará sua teoria da liberdade.

Com os pés no chão e a chuva lá fora, esta será uma noite de solidão e filosofia.

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5 Respostas to “Após oráculo, pés no chão e solidão.”

  1. Kênia Says:

    Intriga-me esta busca incansável pela imortalidade. A necessidade que temos de eternizar nossos nomes… quiças, um mero reflexo do medo que se tem do desconhecido.

    Se assim for, devo concordar, esta questão seria facilmente taxada como inveja divina. Afinal, não deve haver no universo um plano desconhecido aos Deuses, não é?

    Ainda assim, que conforto pode trazer eternizar-se por meio de produções (sejam elas materiais ou ideológicas). Quer dizer, no final daqui há algumas centenas de anos, todos, por mais famosos e aclamados que sejam, não passarão de nomes repetidos invariavelmente, sem uma centelha da pessoa que um dia viveu.

    Pode-se chamar a isso de imortalidade?

  2. Andréa Says:

    E ela, entendeu??

  3. Sérgio Nascimento Says:

    Adorei seu comentário, Kênia.

    Nesses dias também tenho pensado bastante sobre a morte… mas a minha curiosidade ainda é mais sobre o que vem depois dela.

    Não sou nada expert em filosofia ou em Hannah Arendt, mas a imortalidade, no sentido original do que eu entendi nesse texto, creio eu, também pode ser tratada como as mudanças irreversíveis que os homens deixam no mundo. Lembrando um pouco de “efeito borboleta”, as consequências (ainda posso usar trema?) dos atos dos seres levam a fatos que levam a outros fatos, e toda essa história continua eternamente. Nessa questão todos os seres seriam eternos porque suas atitudes e obras deixariam legados eternos, mas é impossível controlar todas essas consequências, assim como é impossível controlar a imagem que terão (ou não) nossos nomes na história: ela é construída e reconstruída por aqueles que vencem, 10, 20 ou 2000 anos após a nossa morte, sejamos merecedores de estátuas ao longo da história ou não.

  4. Tiago Augusto Says:

    Recomendo O DESESPERO HUMANO

    preciso achar o livro para recortar uma frase extremamente emblematica, que contraria essa ilusao de imortalidade.

    nada real dura para sempre

    abraco, futuro professor decadente

  5. Movimento Contra Cotas na UFSC « LEANDRODAMASIO.COM Says:

    […] Damasio Amigos, o dia de hoje marcou o fim das minhas provas de graduação. Só me resta a tal monografia para finalizar o curso de Filosofia. A prova era exatamente sobre filosofia da linguagem, o que […]

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