Crise na tradição

A tradição é fundamental, a ponto de sem ela nada sermos. Com freqüência, no entanto, ela precisa ser posta em xeque.

Poucas crenças se apegam tão fortemente à tradição quanto às religiosas. Eis o terreno onde o senso crítico encontra pouco lugar. O objetivo de preservação das crenças, o típico objetivo religioso, é por essência conservador. A isto se associam símbolos para manutenção do status quo: rituais, cargos, alegorias maniqueístas. Nada é tão conservador quanto o maniqueísmo!

Até mesmo aqueles conhecimentos metodicamente investigados, considerados mais sólidos – os científicos – apresentam fundamentos refutáveis. Nem sempre um bom cientista gosta de provocar estes debates. Especialmente a física contemporânea assume hipóteses tão metafísicas, sobre objetos (prováveis, mas) inobserváveis, que Descares ou Bacon se entreolhariam desconfiados. A história mostra como os maiores avanços científicos surgiram em momentos de refutações teóricas. Além disso, é sempre válido destacar o impacto social da ciência, assim como Horkheimer e Adorno alertaram para a redução ontológica do iluminismo, aquele momento que os homens pensaram iluminar o mundo com a razão, mas trouxeram as trevas de uma sociedade de consumidores massificados.

Acontece exatamente o mesmo na educação para a prática. Situações inesperadas, de risco ou conflito, impulsionam a reflexão. São estes momentos importantes para o exercício da resolução de problemas. A este respeito discorreram teorias eminentes pensadores da educação, como John Dewey e Donald Schön. Não se trata de repetir a técnica acabada – aquela receita de bolo (que muitas vezes é de enorme utilidade) – mas sim de criar nova teoria a partir das experiências e contextos.

Por favor, antes de me apontarem os olhares sentenciosos, deixem-me esclarecer algo: não sou contra o caráter conservador no ensino. Concordo que existe um aspecto de “aculturação” na educação – sobretudo em relação à educação infantil. Sem dúvida, crianças nascem bárbaras e precisam sofrer um processo civilizatório de recepção dos valores, normas e conhecimentos. E esta é uma das faces alicerces da educação. Seríamos tolos se acreditássemos apenas nesta face.

Nas instituições, a tradição também ocupa a dupla personagem vilã e heroína. Quando o respaldo pesa sobre as decisões; quando o prestígio da marca exige cobrança, a tradição se mostra fator decisivo. Mas quando a tradição se reverte em conformismo e estagnação, impede encontrar os melhores meios e fins.

É sustentável afirmar que nossa época vive uma crise da tradição. Porque, como todo humano, sustentamos tradições. Porém já não sabemos quais. Quando sabemos, não conseguimos compreendê-la à luz da experiência contemporânea. Não é a realidade que deve se encaixar na teoria. E quando o contrário não ocorre…

Uma resposta to “Crise na tradição”

  1. Paz mundial inda que tardia « LEANDRODAMASIO.COM Says:

    […] A tradição é fundamental, mas nem tanto. Precisam duma pitada de racionalidade, de visão crítica, para compreenderem que se a história é importante, o futuro o é ainda mais. […]

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