Universitário de Luta

Em meio aos conflitos, inclusive armados, no campus da Usp, tive oportunidade de conversar com alguns amigos  “universitários de luta”. Eis um jargão popular entre os engajados da Usp. Serve para definir o estudante que, mesmo renegado dentro de um ou outro marxismo, ocupa seu tempo nas lutas pela… universidade ou pela … classe popular. Essas duas causes equilibram a balança da retórica de um universitário de luta.

Se estudante universitário tivesse por função lutar, deveria freqüentar outro tipo de academia. Mas no fundo as lutas representam sonhos de uma revolução de verão. Logo que as paixões se congelem, a revolução ficará para o próximo ano.

Universitários de luta são adolescentes brincando de revolução. Muitos deles não sabem que se trata de uma brincadeira, levam a sério, acreditam que estão lutando por algo melhor que o luxo da sua cidadania.

Pretensos cosmo-visionários, são eles limitados ao corporativismo universitário; pretensos porta-vozes das minorias, são eles irresponsáveis privilegiados; pretensos vanguardistas de um novo tempo, carregam eles a mesma cartilha do PCB de 1922 e suas atuais dezenas variações.

Analisar os discursos de um universitário de luta, qualquer que seja sua corrente no emaranhado que é conjunto de marxismos, revela uma contradição: ora defendem os oprimidos, ora defendem interesses corporativos da universidade (salários, moradias, subsídios).

Se vêem coerência nisso, não sei. Talvez pensem que os estudantes precisem de tais benefícios porque são os legítimos representantes do povo. Prepotência? Arrogância? Ao que parece eles realmente acreditam ter as soluções para os problemas sociais todos.

A despeito do que pensam, qualquer olhar externo considera completamente absurdo esse discurso de benefício para estudantes. Para o olhar dos cidadãos-não-engajados, um uspiano já é um privilegiado, nunca um pobre coitado. Mesmo sem apelo popular, esse discurso, removido o clamor e os exageros de sua retórica, por vezes apresenta solicitações justas sobre condições para ensino e pesquisa de qualidade.

O outro discurso, aquele em defesa dos oprimidos, reveste-se de uma retórica mais apropriada. E no entanto é mais frágil do ponto de vista analítico. O seu apelo emotivo é mais apropriado porque atinge símbolos cotidianamente batidos, como o sistema político, personagens marcadas pela crítica midiática etc. Por outro lado, são argumentos por demais vagos e sem fundamento, dirigindo-se a políticas e organizações externas à universidade, coisa que o universitário de luta raramente conhece bem.

Para melhorar as condições do povo brasileiro, precisamos é de serviços públicos orientados para resultados sociais. Essa brincadeira de revolução, mesmo levado a sério – e muito a sério – por alguns, é sem dúvida contraproducente. A crença de um militante chega a um nível semelhante ao fundamentalismo religioso. E não é de duvidar que em situações como essa esvaziem de sentido a tolerância e o respeito, valores básicos de uma democracia. O diálogo então se torna penoso senão impossível. Enquanto eu quero mudar, de fato, a realidade social brasileira, eles querem brincar de revolução, mesmo que o preço dessa brincadeira seja ferir os próprios princípios.

Se houve irregularidade no trâmite da votação do Conselho Universitário; se a PM agrediu injustamente estudantes; se as condições dos servidores são precárias, e se várias outras hipóteses narradas pelo estudante de luta condizem com a realidade, não sabemos. Tais informações são naturalmente desconhecidas para quem é de fora. Se existem falhas pontuais, e é provável que existam, então que “lutem” contra esses problemas. Não precisa da retórica marxista. Ganhariam mais credibilidade e mais apoio para aperfeiçoar a universidade, fosse esse o real intuito.

7 Respostas to “Universitário de Luta”

  1. Leandro Damasio Says:

    Para não ser mal interpretado, deixa eu resumir o post em poucas (e mais claras) palavras. Se existem falhas graves na reitoria ou, enfim, na gestão da USP, de duas uma: ou os grupos militantes não querem realmente corrigí-las ou são incompetentes. Porque se fossem competentes e quisessem melhorar de verdade a universidade, utilizariam os mecanismos institucionais para isso, que não envolvem assembleísmos desnecessários e sim controles democráticos (legislativos, jurídicos, burocráticos etc etc).

  2. Che. « Otávio Anacleto Says:

    […] conseguiu escrever mais bonito que eu sobre algo que vai no mesmo caminho então por favor visite: Leandrodamasio.com Caso tenha preguiça e queria ouvir minha linda voz lendo esse […]

  3. Carolina Says:

    Oie Leandro! Nunca tinha vindo no seu site. Parabéns! Você é um cara de opinião. Eu sinceramente, acho que não importa o que os alunos façam, são sempre mal interpretados. Agora eles acharam novos meios de protestar, como pela arte, em um movimento que eu não lembro o nome hehe.
    Tudo de bom pra você e muito sucesso, continue sendo idealista e sonhador. Não deixe que o meio te influencie a ponto de te mudar.
    xoxo
    Carolina

  4. Leandro Damasio Says:

    Carol, nem sempre os alunos serão mal interpretados. Importa totalmente o que eles fazem. É possível agir com credibilidade. Quando aluno de graduação, eu era levado a sério. Realizamos 2 eventos de porte grande, que viraram lenda no Movimento Estudantil, iniciamos a vinda da ENA (FR) para o Brasil, a construção de um campus da UDESC em Balneário Camboriú etc etc.

    Valeu pelo comentário. Você é sempre mais que bem vinda!

  5. Joao Paulo Bittencourt Says:

    Leandro,

    Creio que o que você escreveu tem muito sentido. Acredito na necessidade de uma visão do todo por parte dos estudantes, para que sejam reflexivos e conheçam o ambiente em que estão inseridos e possam, na medida do possível, modificá-lo em prol do bem comum. No entanto, quanto ao que você citou no último comentário, gostaria de saber:
    – Como vocês fizeram para iniciar a vinda da ENA para a UDESC? Pergunto isso porque tive a oportunidade de conversar com o professor Salm (um dos idealizadores do curso de Adm Pública na UDESC) e o mesmo apresentou esse caso como algo em estilo ‘top down’ vindo do governo de SC;
    – Qual a relação dos objetivos traçados entre a ENA e o curso de Administração Pública no modo com ofunciona hoje? O interesse é que se transformem em um só programa, que convivam com objetivos diferentes ou o que?

    Um abraço,

    Gostei muito do blog

  6. Leandro Damasio Says:

    JPB, obrigado pelo comentário.
    É uma história que precisa ser contada.

    À época, descobri, através do blog do Moacir Pereira, que o governador, o presidente da Fapesp e o Sec. de Articulação Internacional viajariam para França. Tratei de convidar um amigo de curso, Rodrigo Abella, para começar as negociações. Ele marcou reunião com o presidente, eu marquei com o Secretário. Eles pensavam que iríamos só entregar um projeto. Mas nessa levamos o Reitor, a coordenadora, o próprio Salm e fizemos longas reuniões.

    Descobrimos que havia intenção em construir a ENA-Brasil, mas em parceria com uma universidade privada da cidade, sem a menor tradição de ensino em Adm Pública. E no entanto a Udesc possui um dos melhores cursos do país.

    A Udesc é uma universidade. Forma alunos em graduação e pós. A ENA tem o objetivo diferente. É especializada na formação de dirigentes públicos – executivos para o setor público da União Européia.

    Não sei ao certo como andam atualmente os detalhes da parceria. A vida de estudante, em graduação, passa muito rápida. Demos um ponta pé inicial. Agora é com vocês!

  7. Che. « Otávio Anacleto Says:

    […] conseguiu escrever mais bonito que eu sobre algo que vai no mesmo caminho então por favor visite: Leandrodamasio.com Caso tenha preguiça e queria ouvir minha linda voz lendo esse post: Share and […]

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