Minha crítica aos jornalistas

De tanto insistir, muitas vezes sob o silêncio dos leitores, na tragédia do jornalismo político brasileiro, comecei a delinear, ainda que de maneira superficial, o escopo de minhas críticas. Como é possível que jornalistas tão bem formados, possuidores de tão nobre cultura, escritores de mão cheia; como podem compreender com tal amadorismo a dinâmica política? Estou a falar não apenas da competição eleitoral; refiro-me, sobretudo, ao cotidiano gerencial do Estado, à relação entre os poderes constitucionais, às nomeações para cargos políticos e executivos, à formulação, estratégias e avaliações de políticas públicas. O que explica as reportagens tão infundadas que lemos diariamente na imprensa? Não que o assunto seja dos mais simples. Sua complexidade, de fato, exige uma capacidade própria de análise. Minha hipótese é a seguinte. Os jornalistas são treinados a analisar os processos de comunicação e não seu conteúdo. Entenda.

Aqui utilizado, o sentido de análise é específico. Refere-se ao sentido latino, para os lingüistas, ou kantiano, para os filósofos. Analisar é separar o todo em partes. É desse modo que o termo análise costuma ser entendido na filosofia da ciência. Quanto mais um conceito é divido – quer pelos diversos ângulos sob os quais se deixa revelar, quer pelas pressuposições teóricas que dele se pode extrair -, tanto mais significativo e útil ele se torna para o conhecimento. Cada área do saber possui teorias e métodos que servem, de algum modo, como referenciais analíticos. São como instrumentos que permitem olhares reveladores sobre um determinado assunto. Quem os possui consegue facilmente obter conclusões, evitar erros e colocar um ponto de partido para examinar o campo de estudos. Aqueles que não possuem referencial analítico só podem chegar aos mesmos achados por intuição ou por de antemão já terem se informado a respeito das respectivas conclusões, falhas ou abordagens.

Defendo que o jornalista é um profissional, por habilitação, munido de referencial teórico para analisar o processo de comunicação. Teorias e métodos para examinar as especificidades da linguagem escrita, visual e sonora estão presentes nas grades curriculares dos estudantes de jornalismo. Este tipo de conhecimento específico, não há dúvidas, se encontra presente nas demandas operacionais de um jornalista profissional que revisa textos, escolhe imagens, diagrama páginas, fotografa cenários ou produz cenas em movimento. Não haveria de ser diferente. Se até aqui o leitor concordou com a minha explicação, entendemos que o jornalista é capaz de analisar o processo de comunicação. No entanto, e este é o ponto central, há uma diferença entre o processo e o conteúdo da comunicação. Por razões alheias ao objetivo deste texto, creio que a grande maioria dos jornalistas está inábil para comunicar os acontecimentos políticos, justamente porque não compreendem a política propriamente dita.

Da mesma forma que existe todo esse conjunto de referenciais analíticos para que um ser humano possa entender de forma suficiente a comunicação social, também há uma série de teorias, métodos e pesquisas para se compreender a dinâmica política. Teorias estas, como na ciência da comunicação, com perspectivas as mais plurais. É estudando esse campo do saber, a ciência política, que ficamos informados sobre ramos do saber, tais quais teorias políticas, política comparada, políticas públicas, sistemas eleitorais entre outros. E cada um deles se mostra para o estudioso por meio de abordagens diferentes, seja começando pelo olhar histórico, seja pelo matemático. E toda essa complexidade de conhecimento, que se aprofunda a partir da análise de conceitos, está muito distante do mundo em que o jornalista costuma ser formado. Para concluir, diria que o profissional jornalista requer uma formação interdisciplinar que se afunile para uma especialização temática.

Uma resposta to “Minha crítica aos jornalistas”

  1. Pedro Balão Says:

    Concordo em grande parte contigo. Porém o que concluo com teu raciocinio é que não deve haver a obrigatoriedade do diploma para o oficio de jornalista.

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