Aristoi, o vocábulo perdido

É de um afastamento tão grande, não apenas cronológico, mas cultural, que chega a ser quase impossível compreender o que significava, para os antigos gregos, aristoi. Essa palavra, cuja tradução imediata, os melhores, permanece em si vazia de significado, era de uso político inigualável. Sua utilidade prática talvez fosse apenas possível em uma sociedade como aquela, em que um pequeno grupo de cidadãos livres deliberava em luxo sobre os assuntos públicos. Digo em luxo, uma palavra assustadora e até um pouco exagerada ao nosso paladar, por uma razão fundamental. Pois a cidadania grega refutava, com bastante vergonha, as tarefas domésticas e produtivas. Por mais estranho que isto soe aos nossos ouvidos modernos, o passatempo interessante para o bom grego era exatamente aquilo que consideramos fútil, ao invés do comportamento produtivo. Etimologicamente, economia – a nossa ciência da escassez de recursos – deriva dos termos gregos oikos e nomos, que juntos somavam a expressão melhor traduzida como as leis da administração doméstica. O leitor apressado pode se perguntar inquieto: mas o que a futilidade tem a ver com os melhores? Para acalmar o espírito acelerado, respondo: cada época possui sua hierarquia de valores. Deste modo, a pergunta sobre quem são os melhores requer imediatamente uma explicitação acerca do fundo cultural sobre o qual se assentam os indivíduos julgados: melhores para quê?

Buscamos, atualmente, em nossas opiniões mais rasas, um punhado de utilidades para atribuir a alguém utilidades que nos permitem qualificá-lo como melhor. Podemos assim o proceder desde que algumas condições nos resguardem, entre as quais a pessoa julgada não estar diante de nós. Não consideramos politicamente correto julgar os outros; perdemos a coragem de avaliar a individualidade alheia. Trata-se, em verdade, de uma simples característica ética do nosso tempo, uma característica que distancia radicalmente da noção de aristoi do nosso entendimento. Teorizar genericamente sobre critérios éticos aplicáveis aos tudo bem, tudo bem: o estado pode julgar; mas apontar o dedo a uma pessoa e dizer: você é excelente! Eis uma postura rara para os tempos modernos. Quando uma situação dessas por algum acaso surpreende a realidade, não é baixa a probabilidade da tal excelência estar associada a algum critério técnico específico; em última instância, a algum comportamento já esperado, e nunca a uma ação inusitada. Não que os comportamentos previsíveis sejam ruins; são eles apenas comuns e indispensáveis para qualquer sociedade.

Entre os antigos gregos, os melhores eram aqueles indivíduos que estavam constantemente buscando provar sua excelência pública. Essa busca pelo mérito, evidentemente, deve ser imaginada em situações como uma praça pública reunida por ricos, oradores e filósofos vestindo sandalhas e túnicas. Não desmerecendo a condição da riqueza, vale lembrar ademais que os melhores gregos eram não somente os habitantes do topo da pirâmide social, onde em regime político de igualdade fundaram as idéias de liberdade e democracia, embora, convenhamos, jamais tenham deixado de considerar a monarquia e a aristocracia como os melhores regimes de governo. Pertencer a polis era uma condição sine qua non, mas não a única para estar entre os melhores; não era, portanto, uma conditio per quam. Os melhores gregos, os aristoi, eram qualitativamente melhores! não apenas por sua riqueza, mas por suas posturas corajosas. Esta é a diferença. Motivados talvez por uma compreensão de mundo (diríamos hoje, mitológica), em que os deuses esnobavam (de verdade!) os pobres mortais no planeta, os melhores eram os que alcançavam uma espécie de divindade

Os mais elevados espíritos devem conhecer a essência dos aristoi. Só existe um método para melhor compreender essa sublime noção, que infelizmente relegamos às bibliotecas. Este método se chama hermenêutico e consiste em estudar a história até um ponto em que você se sente nela. Não esqueça: é quase nula a função prática da hermenêutica, desse esforço interpretativo, desse deixar-se envolver pelo ambiente histórico. Ainda assim, sugiro-o, posto que o prazer contemplativo compensa qualquer custo. Permanecerá por inteiro inexplicável à vigente ciência do probabilístico comportamento humano.

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