Ostracismo

Ostracismo, essa mais radical das noções políticas, eis a expressão máxima dos povos vívidos. A polis grega, em seu tempo áureo, abusava dessa prática. Ninguém menos do que Sócrates fora dela vítima. Para um povo“over” (como o grego), viver ausente da polis era não ser morto, mas morrer. Ao pé da letra, a palavra latina “vivere” aponta justamente para “estar entre os outros”, o que podemos entender como participar da res publicae. Interessante comparar os valores de povos extremamente políticos com estes do nosso tempo. A civilidade, por exemplo, era tão sagrada pelas leis atenienses, que ninguém podia assassinar Sócrates, apesar da pena de morte. Violência era coisa de bárbaros. Só a persuasão (o logos) mandava na praça pública, de maneira que o ostracismo de Sócrates, na prática, significou convencê-lo ao suicídio. E foi isso que aconteceu. Ninguém o matou, ele que morreu. Bebeu deliberadamente a cicuta e deixou o maior dilema teórico jamais solucionável para a filosofia. Ninguém vai falar isto na missa de domingo, mas é claro que a morte de Sócrates foi mais espetacular que a de Jesus Cristo. Ambos os revolucionários, que jamais escreveram uma linha, foram ostracizados à morte. Isto fantástico! Muito embora Aurélio Buarque não reconheça aquele verbo. Os ombros a ele. Escândalos como o de Arruda deveriam resultar em ostracismo. Pena que as formas modernas de ostracismos são civilizadinhas demais até para um grego. Somente um povo “over” é capaz de colocar a política na frente da vida. Não somos vívidos, como diz o hino, porque o espírito brasileiro ainda é determinado por valores medievais. Antes corromper a república do que levantar a saia na faculdade. Ah se Arruda fosse um senador romano… seria pregado na cruz! Nesse escândalo sobram panos quentes ou ataques hipócritas. Faltam dedos firmes para apontar, primeiro, a cara de Arruda e, depois, na direção do cemitério ou algo que o valha. Isto seria ostracismo à moda antiga. Até agora só um dos envolvidos chamou atenção, um que disse aos jornais: “pedi que me informasse antes de divulgar os vídeos, para que o governador pudesse dar um tiro na sua cabeça”. Os vídeos passam a cada minuto nas redes de televisão, e até agora nenhuma bala foi atirada em sua cabeça. Melhor seria ostracismo. Dadas as circunstâncias, pelo menos impeachment e expulsão.

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Uma resposta to “Ostracismo”

  1. Renato Augusto Teixeira Says:

    Um belo texto, firme e demonstra indignação. É um pouco ‘apolítico’, mas verdadeiro. Infelizmente há poucas pessoas escrevendo assim e ainda menos pessoas discutindo este assunto.
    A meu ver o povo está politicamente ‘off’ e nada parece acioná-los, nem mesmo os escândalos presentes.

    Receber parabéns por expressar sua opinião pode não perecer necessário, mas quando alguém se posiciona, frente às irregularidades políticas do país, realmente acho louvável e por isso lhe parabenizo.

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