Desafio de época

É decepcionante a análise política orientada pela mídia mainstream brasileira.

Nenhum fato é neutro. Nem o nêutron atômico, muito menos um fato político. Esperar da mídia a informação neutra representaria aguardar o silêncio, porque, em política, nada existe sem análise. Analisar, desde Aristóteles, significa separar em partes o que antes era unido. É a análise que permite a síntese, definida como uma nova união daquelas partes. Surge desse movimento nada menos que o conhecimento. Sem análise, qualquer fato político seria um dado bruto destituído de sentido. Então, o fato é sempre uma compreensão daquilo que está por trás do fato. Alguns utilizam essa característica para manipulações interesseiras. Grande parte da prática política, inclusive, constitui em propagar informações manipuladas. Outros buscam a reflexão desinteressada sobre o fato exatamente naquilo que está oculto: naquilo que o fato ajuda a revelar. Essa é a tarefa, não do político, mas do intelectual.

Todos podem prever os acontecimentos futuros. Se os Democratas expulsarem Arruda, saciará a pressão da mídia e dos grupos internos e externos, deixará o governador, sozinho, à mercê do julgo político brasiliense, o que provocará um impeachment e mais alguma punição pessoal. Esta solução não difere daquela adotada pelos Trabalhadores em seu recente e semelhante escândalo. Até essa parte do raciocínio, a maior parte dos “analistas” consegue chegar. Daí para frente, a tarefa sobra para quem não é lido em massa. Vá lá.

Provadas as acusações, como de fato estão, o ideal seria que os Democratas punissem todos os envolvidos. Não seria o mais racional, o mais ético, expulsarem todos aqueles que desviam dos valores de um partido? Que incentivos teriam para fazê-lo? Poucos. A repercussão da mídia seria quase a mesma, a ira dos seus opositores seria a mesma, a revolta de seus membros seria maior, perderia bases importantes de poder regional em Brasília. Que benefícios teriam para fazê-lo? Acariciar determinado afã juvenil? A que custo? Não. Eles não expulsarão todos os envolvidos.

Estamos cansados de saber, espero que vocês também estejam, que política não é lugar para a bondade. Bondade existe, mas em outros lugares: na igreja, na oração, na doação privada, no interior da alma humana. Desde Santo Agostinho aprendemos que o lugar da bondade é na esfera privada. Isto não quer dizer que resta à política a maldade. De modo algum! O raciocínio político, vamos lembrar de Maquiavel e de Nietzsche, está para além do bem e do mau. Outros são os critérios de avaliação. Muita gente ainda não aprendeu essa lição básica, o be-a-bá da análise política. Julgada apenas pelos seus efeitos, então, a ação política permite tudo, tudo, tudo, desde que se assuma responsabilidade por feitos. Não existe apenas uma determinação para a responsabilidade. Mas uma delas é indiscutível: as regras institucionais. Ninguém discorda que as regras criam incentivos e punições formais ou informais. E isto, em boa parte, molda a ação, transformando-a, portanto, em um comportamento previsível.

Os Democratas não expulsarão todos os envolvidos, assim como os Trabalhadores não o fizeram, não porque são oportunistas malvados, mas porque não possuem incentivos institucionais para tal. Desde os pilares institucionais disso que é o Brasil, os partidos políticos são institucionalmente fragilizados. Não se trata evidentemente de uma situação casual, mas de um problema crônico, cuja mudança envolve enorme esforço e compreensão pública.

As mudanças institucionais desencadeadas pelo governo Vargas ampliaram e centralizaram poder na alta burocracia sem lhe prever o controle legislativo. A estratégia modernizante varguista foi institucionalizar a cooptação de interesses regionais e econômicos, a exemplo da fundação dos daspinhos e das autarquias e empresas públicas. Um dos efeitos dessa estratégia foi conceder demasiadamente autonomia para a administração. É tão grande o peso político da alta burocracia no Brasil, que ela (e não os partidos – como era de se esperar no modelo representativo de democracia) possui projeto de nação; projeto este verificado pela influência e continuidade das políticas públicas do Itamaraty e das Forças Armadas. Ocorre isto porque a função governativa dos partidos é ofuscada pela função representativa, esta por sua vez centrada no momento decisivo da representação, de maneira que os partidos despreocupam-se com o debate público em detrimento da captura de votos para as sempre próximas eleições.

Esta não é mais uma visão sobre o Brasil. É a questão fundamental para entender a sociedade brasileira, assim como a proteção ao presidente é a questão central para entender o sistema político do nosso país. A mesma proteção, diga-se, interpretada pelos constituintes de 1988 como “a solução” para garantir estabilidade política e governabilidade. Dado o rápido crescimento das estruturas sociais, econômicas e políticas brasileiras, houve uma crise institucional, que provocou, além da interrupção da democracia, o surto da hiperinflação. A característica diferenciada do modelo político brasileiro é, devido à heterogeneidade social, montar o Executivo a partir de ampla coalizão multipartidária. Nenhum outro país funciona assim. Para diminuir a fragilidade política desse presidente que responde para tantos atores, foram criadas estruturas intermediárias, cujo resultado foi blindar o presidente do legislativo tanto quanto do seu próprio partido.

As esperanças que hoje se depositam por sobre o país Brasil em muito devem à autonomia da alta administração pública, que já antes de Vargas, mas acentuada em seu governo, definem as políticas de desenvolvimento nacional. Não foi pelo pragmatismo de seu povo nem pela grandeza de seus políticos que o Brasil, em um século, cresceu o que outras nações européias demoraram dois. Foi pela formação de uma elite administrativa que, protegida da opinião da sociedade “selvagem” e de seus representantes políticos medíocres, conduziu o desenvolvimento econômico, em detrimento das gritantes demandas por igualdade. Foi a linhagem dessa mesma elite que, agora, formula e implementa as políticas sociais mais exitosas do planeta. Ou alguém acredita que a eficácia, raramente reconhecida pela opinião pública, dos novos programas de saúde e de educação são dádivas de um ou outro partido? A verdade é que a opinião pública raramente reconhece esse progresso. E quando reconhece o atribui a um partido ou outro. Mas os partidos brasileiros estão representados pelas associações comerciais, pelos sindicatos trabalhistas, pelas federações industriais, pelos conselhos profissionais. Eles é que no fundo influenciam os agrupamentos que denominamos legalmente como partidos. Eles é que mobilizam pessoas e representam interesses. Eles é que se preocupam com a função representativa tanto quanto a governativa. Sem esses dois elementos o agrupamento político pode ser tudo, menos partido.

O país do futuro precisa entender esse problema. Não podemos perder de vista os vínculos entre estado e sociedade. Não podemos continuar o desenvolvimento sem a clara noção de partidos políticos. Não podemos contar eternamente com o sucesso da alta burocracia descontrolada. Rendemos homenagem a ela, a tudo o que fez, ao país que ela gerou, mas devemos redesenhar a instituição política, para promover melhor accountability. Esta é a mudança do futuro! Uma mudança perigosa, pois balança as estruturas tectônicas do tecido social. Devemos, em síntese, fortalecer o papel dos partidos, para que, depois, eles se ajustem no decorrer de suas disputas. Fortalecer sem, no entanto, enfraquecer a governabilidade. O chamado está feito para os jovens desta geração.

Se, por acaso, os Democratas expulsarem todos os envolvidos no vigente escândalo, esta análise deve ser humildemente refeita.

– sem revisão

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3 Respostas to “Desafio de época”

  1. iuana Says:

    Sem palavras Nano! Eu acho que você, além de grande intelectual
    será o maior blogueiro do país. Minha nossa! esta análise está perfeita.
    Vou imprimir e reler mais algumas vezes. É claro, esta não é mais uma questão do Brasil. Esta é a questão!!! Nossos representantes estão cuidando basicamente de sua função eleitorativa e quem toca este país é basicamente a elite buracrata.
    kakakak, os pobres burocratas que nós tanto criticavamos na faculdade sem saber direito do que estavamos falando. Tem razão.
    Nossos representantes não tem nenhum projeto de nação, basta acompanhar o informartivo do Congresso ou da nossa Assembleia.
    hummm…eu sempre achei que podia contribuir como burocrata mesmo!!
    beijos

  2. Ismael Says:

    Tocaste no ponto com uma agulha: a punição de todos os envolvidos leva mais próximo da morte política o partido, ao menos no curto prazo, e não acabará com a parcialidade da mídia, do governo e da “sociedade civil organizada” ao redor da oposição, especialmente do Democratas, que o pensamento pueril de muitos insiste em vincular ao coronelismo conservador; junte-se isso à notável competência da PF (que curiosamente vira incopetência ao tratar da safadeza do partido dententor do governo), e a rápida condenação dos envolvidos por parte dos crápulas do palácio do planalto além da proximidade das eleições e temos um belo tema pra um jornalista interessado em teorias da conspiração.

    O PT é um partido biônico. É construído pelo pensamento marxista e gramisciano de professores USP e representa a vontade destes senhores que acreditam que tem a solução para os problemas da humanidade; os demais partidos orbitam em seu redor fazendo suas vontades em troca das migalhas das verbas e cargos. O PT acabou com a política, tornou ela uma questão de propina, e essa pra mim é a tragédia de dependermos de um planejamento do todo-poderoso e onisapiente Estado. Que tipo de Brasil essa gente quer? E como a sociedade pode dizer NÃO a ele se sua representação está de joelhos? Acho que já te falei antes que não vejo futuro na política do país a menos que uma nova geração intelectual levante-se para influenciar os partidos que ainda se salvam, e aí concordo que o chamado se faz para os jovens desta geração.

  3. Hugo Says:

    Mas o Itamaraty mudou muito nesse governo Lula, por exemplo.

    Quanto ao Arrudo tudo está sendo perfeitamente institucionalizado: a Câmara Distrital aceitou a denúncia de impeachment e começa o processo por lá, esse de cunho jurídico e político.

    Do contrário, correrão ações penais e civis perante o Poder Judiciário.

    A mídia é parcial, assim como a opinião do porteiro do prédio também é. Agora a neutralidade é outra história. Eu acho que a imprensa deve fixar claramente uma linha editorial e pronto, não vejo problemas nisso.

    A Veja nos anos 80/90 era meio de esquerda e mudou de 2000 pra frente.

    Associar o DEM com coronelismo é ter memória, assim como o PT com o clientelismo e patrimonialismo.

    A tendencia da burocracia é se fortalecer até mesmo porque os anos 90 pra cá: salários altos, formação alta e maior autonomia. Em se tratando de Brasil, pode ser até melhor!

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