Com puta ação

Preconceito: eis o empuxo do passado não distante. Está em chamas. Nossa época é marcada pelo fim de preconceito. Tudo está em ruínas. Como é bom viver entre as ruínas! O quadro pintado por alguma ficção científica qualquer representa agora a mais pura realidade. Seria uma ultramodernidade? Uma pós-modernidade? Ou nada disso? Aceitando-a, recuso a última resposta. Novamente com Tales de Mileto: tudo é um.

Contra o preconceito, nossa geração é determinada pela pluralidade. Não uma qualquer, mas, sim, a intensa, histórica ou abstrata pluralidade de formas e conteúdos, cada vez mais díspares e excitantes.

Se isto corresponde a alguma noção essencialmente diferente, não ouso afirmar: pois recusar a pergunta significa a melhor das respostas. Em vez de argumentos, sugiro descrever embrulhados exemplos e sensações. Nada seria tão convincente. Ora, não é precisamente agora, neste instante, que olhamos para o passado sem buscar nenhuma autoridade da tradição mas também sem desdenhá-la? Enfim, não somos modernos para rejeitar a tradição nem somos antiquados para aceitá-la. Somos eu e você e quem mais ousar.

Em algum post, este blog levantou a dúvida se Kant teria lido Aristóteles. Razões havia para desacreditarmos, mas a dúvida se perdeu de vista nas alturas. Por rejeitar o “sempre eterno” da autoridade tradicional, Kant não leu. Um homem moderno não queria ler o passado. O projeto da modernidade pretendia recriar, a partir do ponto zero,  as bases do pensamento, das artes, da vida.

Em uma leitura rápida de Thomas Hobbes é bem possível capturar como a Inglaterra do século dezesseis repudiava aceitar um argumento de autoridade. Qual não é a ousadia dos franceses ao ler um rebelde chamado René Descarte, que já não mais escrevia em latim, propondo a suspensão de todo o conhecimento?

Não queremos hoje romper a tradição. Não queremos uma crítica da razão pura. A bem da verdade, não respeitamos essa tal de razão. Para além da modernidade, somos os punks da história universal.

Somos até os cyberpunks dessa mesma história. Nós hackeamos a filosofia, trapaceamos a arte, ownamos a história e recriamos os ídolos, enfeitando-os com nariz e olhos vermelhos, feito crianças rabiscando apostila escolar.

Nosso privilégio é poder acessar as criações e libertar a imaginação. Seja pelas bibliotecas e cinematecas virtuais, seja pela acumulação sem precedentes dos capitais, seja pela educação global dantes nunca imaginada, enfim seja pelo que for: nós acessamos tudo. Basta querer. Do yourself.

A arte agora pode misturar gêneros. Pode misturar artes. Pode misturar tudo isso com psicanálise. Com mitologia romana. Com engenharia. Com arqueologia indígena. Com Jordan Secaff. Com econometria. Com você. Com  puta  ação.

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5 Respostas to “Com puta ação”

  1. Leandro Damasio Says:

    A contragosto desisti, por vocês, dos parágrafos longos. O texto, como este, assim fragmentado, é infinitamente mais horroso, porém, confesso, mais convidativos a leitura.

  2. Leandro Damasio Says:

    A imagem, a roubei de uma revista argentina de crônicas. Fonte também lá não havia. Ao inferno com as fontes!

  3. Igor Says:

    Muito bom!
    Tanto o texto quando a imagem…
    Parabéns.

  4. Albert Gaia Says:

    Eis o Homem Pós-Moderno!Por mais que alguns digam que ele representa o maior centro da decadência de valores humanos (o que é uma análise altamente míope).Identifico nessa perspectiva uma grande potencialidade devido a ação de transitar por diferentes realidades.Assumindo o papel de rever, (re)explorar e interconectar diversos paradigmas.

    O dinamismo de nosso tempo tem como causa esses homens e mulheres que buscam freneticamente formas de entender e recriar o próprio tempo em que eles se encontram!!!

    Que a sobreposição, o caos, o efemero, a fragmentação e o mosaico de formas e conteúdos nos possibilite reformular a construção ou reconstrução do nosso futuro.

    Viva a Complexidade!

  5. iuana Says:

    Gostei do texto, gostei do tema. Ando mesmo intrigada com essa coisa do mundo moderno. Essa pluralidade toda, essa infinidade de estímulos, de mídias, de informações, de opiniões, de visões de mundo…
    Por alguns momentos fiquei pensando se isso tudo era realmente bom, se não estava mais atrapalhando que ajudando as pessoas na sua busca pela felicidade – considerando que estamos aqui para ser felizes.
    Depois de avaliar muitas coisas, eu ri do meu questionamento, é claro que estamos melhor. Somos mais livres e isso ja diz quase tudo. E então temos tanto espaço quanto desejarmos para buscar essa felicidade das mais diversas formas. Acho que o que mais precisamos agora é saber o que fazer “com essa tal liberdade”. Desenvolver nossa capacidade de tomar decisões e estruturar o nosso mundo, o nosso espaço no meio de todas essas possibilidades…e descobri que com maturidade, conhecimento e reflexão dá pra fazer um mundo bem bonito, as ferramentas estão todas aí.

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