Obviedades

Conforta-me o aconchego daqui, deste imenso meio campo entre arte e ciência. Pouco me importa o valor socialmente atribuído à produção dessas restingas ociosas. Tudo aqui é regado pelas intuições mais infames e, por isso mesmo, mais obscuras. Precisam de máscaras para adentrar aos círculos de sentido social. Quando se aproximam da técnica, ciência e arte já não parecem meio campo, esta mera condição para ataque e defesa; adquirem respeito, salários e outras dessas pretensões cotidianas. Por que não? No teatro que é a própria sociedade, as máscaras não devem cair, pois a queda, ela representa uma espécie de patologia, protegida mesma por instituições qual hospícios e presídios. Houve períodos em que ciência e arte, nobres bajuladores, se aproximavam da guerra; outros em que se disfarçavam de religião. Melhor hoje: de técnica. Supostamente técnicos, somos nós, os errantes do vinte um, únicos apóstolos do espaço cintilante e, agora, também um pouco brasileiros, conquanto nacionalidade seja uma identidade menor, não menor do que os bairrismos ainda mais vulgares. Somos isto, terráqueos em busca da imortalidade, de modo que a preocupação coletiva, pouco a pouco, volta-se da economia nacional à ecologia planetária. Mas isto denota pouca ante nossas reais ambições cosmo-imortais. Afinal, sempre quisemos ser o que a nossa imaginação pode criar de mais grandioso, isto é, deus. Por que tudo se nos aparece assim pela metade? A grande verdade, por muito escondida, e agora revelada entre os zeros e uns perambulantes, é que, pense bem, todas as atividades estão no meio campo. Tudo é disfarce; tudo joga um pouco no time do zeitgeist (em nosso caso, a técnica) mas também escondidinho nos recantos da inconsciência. É claro que o inconsciente não respeita a ordem social da história. Para ele, nem existe o que poderíamos chamar de tempo. Em outras palavras, sem meio campo nem há máscaras, sem ego não há superego (Freud), sem o ser não há tempo (Heidegger). E vice-versa. São os níveis mais abstratos da existência que garantem significados, sempre confusos, para as regras objetivas. Quando duas inconsciências se tocam, inda que mascaradas, aparece um deus ex-machina para soprar um apito final. Ilusório, é claro.

Anúncios

2 Respostas to “Obviedades”

  1. Jordan Secaff Says:

    Ilusão do tipo “liberdade ou morte”, para ficarmos com o discurso de Péricles, copiado talvez por D. Pedro.

  2. Sérgio Nascimento Says:

    Bah…. acho que nem tudo é tão óbvio assim.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: