puzzle

Não é pra ninguém segredo que Hannah Arendt foi a mais brilhante, a mais corajosa e a mais imprevisível filósofa, pensadora sobre a relação entre filosofia e política. Melhor: sobre a relação entre a prática filosófica e prática por si: a política; entre a (suposta ausência de) ação de filosofar e a ação na esfera pública: isto é, política. Um dos seus mais extraordinários achados, enquanto análise da praticidade da prática, é exatamente o encontro do preconceito filosófico contra o mundo: o preconceito de boa parte da tradição filosófica perante e contra a atividade política. Desde Platão, nos dirá Hannah Aredt, os filósofos aceitam uma espécie de viés teorético, que põe a contemplação (theoria) no topo da hierarquia de valores humanos, de maneira que, para a tradição metafísica, para a tradição de pensamento filosófico que pergunta pelo ser dos entes, a teoria sempre foi associada ao divino, ao conhecimento e à liberdade, enquanto que a ação (praxis), quando muito (teoria social liberal), esteve associada a um mal necessário. Esta hipótese fortíssima que Hannah Arendt nos traz, esse ângulo a partir do qual ela projeta luz sobre conceitos fundamentais, é um tipo de hipótese que, na história da filosofia, desvela um arsenal de novos teoremas filosóficos.

Hannah Arendt pouco escreveu sobre arte, muito embora o pouco de seus argumentos permaneçam como jóias preciosas para os filósofos da arte. Ela dança a dança da análise filosófico-histórica, indo e voltando pelos séculos, tipologizando tudo que lhe aparece, transpondo o abismo. O objeto artístico é, digamos, contemplável, mas o processo de criação é, assim, banal. Realmente, uma tarefa difícil falar sobre, porque, veja, Hannah Arendt está sempre preocupada com a liberdade. Há uma inclinação, porque uma preocupação central, em pensar a diferença entre a política antiga e moderna; uma inclinação que desvenda um mundo de insights e conclusões teóricas sem as quais qualquer teoria política está, concordo, fadada ao fracasso. Teoria e prática estão de vários modos relacionadas ao objeto artístico, e o objeto artístico é algo como um objeto, uma coisa fabricada pelas mãos dos homens que habitam o mundo, um mundo que, existindo, só é mundo no momento em que está recheado por objetos fabricados por humanos, objetos cujos sentidos são conferidos pela palavra humana.

Vamos supor uma diferença entre fabricação (construir um objeto no mundo), ação (revelação do indivíduo em uma esfera pública) e pensamento (diálogo interno). Adotando essas definições, temos o quê? Diferente da ação, pensamento e fabricação são atividades que podem ser exercidas na solidão. O que decorre a partir daí? Que mesmo de um filósofo contra-metafísico como Nietzsche ainda escorrem preconceitos contra a política (definida nos termos acima). Haja vista a importância da solidão para a filosofia nietzschiana, fica evidente a sua perplexidade contra aquilo que é condição para a política, ié, pluralidade. Por outro lado, a expressão artística está para Nietzsche como a ação está para Hannah Arendt: uma atividade não necessária, mas quase que inevitável. A expressão artística é como que a única saída de um mundo sem saída. Nietzsche, como Arendt, lança dúvidas aos preconceitos metafísicos. Ambos refutam que o conhecimento seja algo além de humano. Ao contrário, conhecimento representa uma presunção humana. Os homens, no mundo, se arrogam ao produzir sentenças verdadeiras. Mas essas sentenças não bastam de sentenças produzidas por homens, no mundo. Na medida em que refutam a divinização do conhecimento, Nietzsche aponta o caráter humano e libertador da expressão artística enquanto Hannah Arendt aponta o caráter humano e libertador da ação: da ação política, que é, por sua vez, condicionada pela existência e pela pluralidade dos homens em uma esfera de igualdade, mas uma esfera pública, em que os homens não apenas estão em posição de igualdade para se expressarem, para expressarem suas individualidades, mas uma esfera pública sobre a qual haja holofotes, como em um teatro, thea, para que os espectadores, que podem também ser atores, reconhecerem a existência daqueles que, por suas palavras e por seus feitos, revelam perante os outros suas próprias biografias. A biografia de um indivíduo é sempre uma biografia individual, mas é sempre uma bio-graphia na medida em que a vida desse indivíduo é grafada pelas palavras dos seus conterrâneos, humanos habitantes do mundo, que proferem sentenças acerca da vida e do mundo humanos. A realidade do mundo, diria Hannah Arendt, é construída intersubjetivamente. Politicamente falando, a realidade é fruto não da essência, mas da aparência. São as aparências que constituem a possibilidade de re-conhecimento das individualidades. Uma teoria política que parta do indivíduo ou das estruturas sociais para deduzir fórmulas são apenas espécies de metafísicas políticas, pois congelam a realidade, aprisionando-a em conceitos, ao invés de legar aos próprios atores políticos a capacidade de, entre eles, construirem a realidade, a partir de seus problemas, suas expectativas e disposições no mundo. O mundo é precisamente isto: a casa em que já sempre estivemos.

A questão de escrever este texto é sem mais. É que faltam algumas peças no quebra cabeça de Hannah Arendt. A arte, ok, é um processo tal qual fabricação e seu objeto pode ser isolado como que digno de contemplação. However, não me satisfazem algumas conclusões. Sempre me incomodei com o preconceito com que Hannah Arendt fala da burocracia. Influenciada pela literatura de ficção científica (inclusive ficcionistas tão científicos como Max Weber) e esquecendo seu preciosismo nas  ponderações categóricas, Arendt considera a burocracia a mais cruel de todas as dominações, pior que a tirania, pois que não uma dominação de um contra todos, e nem de poucos contra todos, como a oligarquia, mas a dominação de ninguém contra todos. Este tipo de afirmação é inconsistente com as suas preleções sobre a revolução americana, com o elogio do pragmatismo americano no trato com as reformas constitucionais. Não só. Pensar que a burocracia é a tirania de ninguém implica descartar a idéia mais básica de que liberdade requer regras. Mesmo a democracia política (polis) ateniense precisava de regras, a ponto de Hannah Arendt insistir por diversas passagens que a construção de leis é uma tarefa a-política mas pré-política, é uma tarefa como a arte, é, portanto, uma fabricação, uma técnica, ok, mas é uma condição para a política.

Três breves considerações.

Primeiro, o que ela refere como “regras” aí neste caso acima significa regrinhas do jogo para a participação. Significa algo como: regras operacionais de uma assembléia: quem fala, quando fala, para quem.

Segundo, o foco da regra é a esfera pública. A regra, a lei, atende a uma demanda para melhor funcionar a polis, o mundo da liberdade. Veja, a lei não está voltada para regular a sociedade, esta idéia tão moderna. É claro que ela reconhece isto. Aliás, reconhece que não existe mais esfera pública nem privada; diz que estas duas se diluíram na esfera social (a sociedade), esfera esta suscetível a uma ciência social. Porque nela os indivíduos se comportam (em vez de agir), a sociedade é, essencialmente, alvo das regras. Esta também é a razão por que se encontra na sociedade padrões e regularidades medidos pela estatística, esta principal ferramenta da ciência social, ou melhor, da “ciência” social: a economia. Neste momento, Hannah Arendt faz brilhar todo seu gênio, mas nos deixa um grande mistério. E aí? Não mais será possível pensar a relação entre sociedade (economia, oikos) e política (liberdade, polis)? O mundo acabou? Muita gente lê Hannah Arendt até aí. Esquece que sua preocupação, ao contrário, é contemporânea e ela só quer pensar o nosso tempo: o que estamos fazendo? Concordo que seu diagnóstico é fatal. Foi ele que me trouxe para os campos das ciências sociais. Não fatal porque impossibilita novos passos. Não. É fatal porque impossibilita voltar atrás. Não dá pra fazer filosofia política sem passar por Hannah Arendt. É como estudar epistemologia sem passar por Hume. É como estudar ética sem passar por Kant. É como estudar lógica sem passar por Frege. É como estudar filosofia sem passar por Aristóteles. Não dá pra partir de outro lugar senão do conceito de liberdade. Muita gente ignora essa inevitabilidade, pois, cercado pelos constrangimentos sociais, normal, temem afirmações perigosas. Quando me afastei da filosofia temi que o afastamento fosse definitivo. Mas não. Isto me permite praticá-la com menos constrangimentos da rotina acadêmica, coisa de que não estou e nem estarei jamais totalmente afastado. A filosofia também não se tornou para mim um hobby. Hobby não denota coisa séria, e talvez seja a filosofia a única atividade que eu leve realmente a sério, motivo por que a testemunho para o blog. Como um planejamento que inicia pela definição dos objetivos, a teoria política precisa, antes, saber onde quer chegar: o fim é o início. Liberdade é o sentido da política, portanto é o primeiro conceito. O bonde passou e quem não pegou, ficou pra trás. Hannah Arendt, gigante, nos legou a mais preciosa pergunta. O gap de suas teorias, como equacionar o social e político (naqueles termos, evidentemente)? Pistas foram deixadas pela própria em alguns textos menos teóricos, como Da Revolução e Homens em Tempos Sombrios.

Terceiro, o sentido de técnica por ela analisado não está distante daquilo que Immanuel Kant entendia pelo termo “técnica”, e isto, na minha opinião, é um entendimento deveras problemático. Não que a noção de Kant seja, em si, problemática. Dentro do seu sistema (especialmente em Crítica da Razão Prática e Fundamentação da Metafísica dos Costumes), faz todo sentido considerar a técnica como a única adequação entre meios e fins. Mas o sentido contemporâneo de técnica e, sobretudo, de tecnologia, requer adaptação. A propósito disto, é válida, inclusive, a alegação heideggeriana de que a tecnologia é a nova metafísica, é o Deus do século vinte e um. O século dezessete e dezoito permitem a Kant usar aquela noção mecânica de técnica. Hannah Arendt, ela tem permissão pra usar uma visão mecânica de técnica, inda que no século vinte.

“Arte” e “administração” são conceitos chaves, que, se melhor trabalhados, podem trazer uma solução para o puzzle. Quando Hannah Arendt fala de administração lhe escapam preconceitos, os mesmos referentes à burocracia. Na sua visão, administração significa controle, mas não. Não. Não mesmo. Nada de jogar tomates nela, afinal, afinal, afinal. A categoria “administração” traz uma porção de oportunidades analíticas para refletir o gap. Chegou a nossa vez de continuar essa obra magnífica e hoje podemos pensar todos os nossos conceitos vinte e um: são eles as peças que faltavam. A noção de instituição, vinculada com a idéia de game, solucionará o puzzle da economia versus política. Não à toa, puzzle, esta linda palavra, significa um problema, mas é também um jogo. Uma teoria não matemática do jogo, uma teoria computacional (artificialmente inteligente), uma teoria em que o jogador, na sua interação (liberdade) pode, inclusive, mudar as regras do jogo (instituição), só que o jogador não é outro senão a minha existência (da-sein), pois é o que falta na filosofia: juntar as peças espalhadas pelo chão.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: