a roberto piva

Excelente, Roberto Piva é melhor do que eu imaginava, e como é bom encontrar algo melhor do que se imaginava ser! Com Roberto Piva, acho que descobri o efetivo surrealismo na poesia, mas não. É mais e menos do que essa maravilhosa descoberta insignificante.

Toda a estética beat, com sua psicodelia, sua música pré-punk, seu rock progressivo, é tipassim um conjunto novo e um estilo de época pós-surrealista: é, portanto, mais.

Todo estilo de época, entrementes, veja-se, ele é maquiagem do sacrilégio que é a expressão poética, e, portanto, é menos.

As estéticas de época se equivalem a maquiagens do sagrado na medida em que, concordo com Piva, a poesia representa o caroço do sagrado, e certamente um sacrilégio pagão, a menos que essa poesia seja aquilo que ela não é, tipo alguma prosa versificada, travestida de poesia, isto não.

A força da poesia é maior que a força da imagem de cristo, por exemplo. O valor da verdadeira poesia é muito maior do que o estilo de época, porque, em certo sentido, mais próximo do divino. A poesia, como a música, atravessou os milênios da história civilizada, conversando em seu nome, em sua expressão, em seu termo, em sua forma, o mesmo contorno verbal “poiesis” a que os gregos designavam a criação humana.

Foi não apenas os gregos como também todos os povos conhecidos quem relegou ao poeta um papel quase profético, num elevado grau do espírito, embora, por outro lado, a atividade da poesia, humana que é, se desvele para a sabedoria prática como seus artifícios para criação, artifícios estes podem ser aprendidos pelo treinamento, pela experiência, pela repetição, pela tentativa e erro, pela paciência, com o mesmo pragmatismo que o escultor esculpe a escultura e que o animal reproduz sua espécie.

Essa falta de opção que aprisiona o significado da poesia entre o místico e o manual, entre o sagrado e o banal, assemelha-se a mesma falta de opção que aprisiona, com força arrebatadora, o sentido da palavra theos por durante os mesmos milênios. Bem verdade que a própria palavra verdade já não significa o que significava. E ora nem mesmo a liberdade opera de tal modo.

A falta da experiência da liberdade, sem dúvida alguma, ainda causa confusão entre os humanos e até mesmo os mais confusos humanos, os teóricos a ponto destes homens teoréticos hoje serem considerados como uma espécie de deuses profissionais, os theo-ricos. Não me parece, portanto, que algum dia Deus seja de menor relevância em comparação à Jesus e muito menos que a poesia seja de menor relevância em comparação à prosa, porque a prosa, por melhor que seja, estende e desgasta a experiência poética, enquanto a maior verdade seja alguma verdade indizível, apontada, entrevista. O fato de Deus não existir é, por assim dizer, a prova de sua imanente verdade.

Deus é, ainda e sempre, theos, esta totalidade, este panorama total. Foram os filósofos alemães que descobriram esse duplo aspecto da divindade, esta característica de Deus significar ora o mais abstrato de todos os conceitos, ora o mais empírico de todos eles; enquanto sagrado, Deus é a experiência única de um conjunto de valores como a verdade e a beleza e a liberdade e a justiça; se quando theos for um conceito metafísico, então trata-se do pensamento mais fundamental que sintetiza finitude e solidão e a idéia do “todo”. Isto é muito importante, é uma lição básica de ontologia, e é também agora como sempre urgente. É urgente, porque, em primeiro lugar, existe Berlin, como existe política.

Essas evidências requerem um pouco de experiência theológica, tão em falta, no sentido filosófico do termo, isto é, conceitual: theo(ria)logia. A fragmentação das ciências modernas, a falta de totalidade, as cada vez mais especializadas sssciences, elas obscurecem a verdade, afastam-se de qualquer tipo de compreensão do divido, seja pela arte, seja pelo conhecimento ou a verdade, a filosofia. Alongar os limites da ciência, por outro caminho, isto me parece uma boa tentativa para refletir, hoje, o núcleo criador da experiência humana.

Psicologicamente falando, o maior prazer é o sentimento de poder; logo existe política. Linguisticamente falando, nossa compreensão é limitada pela estrutura lingüística; logo a gramática alemã facilita (embora não determine) a compreensão filosófica. Com esse tipo de inferência, como se vê: nada complexo; é perfeitamente possível identificar o significado da cidade de Berlin no atual panorama das esferas públicas contemporâneas. Faz diferença. Como faz diferença saber agir, tanto no sentido de poesis quanto no sentido de praxis, um assunto já muito martelado nos antigos posts deste blog brasileiro.

Quanto mais escreve, quanto mais fala, o filósofo tanto mais se distancia da verdade e de theos. De maneira quase que inacreditável, Aristóteles nos conta, em sua Metafísica, essas brilhantes descobertas ontológicas dos filósofos prévios ao arrastão cético e conflituoso de Sócrates, antes do período de decadência da cidade que foi a mais esplendorosa Athenas do século quinta antes do mister Jesus Inri, esta figura tão magnífica que até hoje, como nos anos sessenta, influencia a juventude revolucionária da paz e da tolerância. Roberto Piva, Jesus a seu estilo, sexo, drogas, rock and roll. Roberto Piva, paz e amor.

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