Debate sobre liberalismo no CFH/Ufsc

Abaixo um pequeno texto que tentei ler ontem na classe de Teoria Política II, do curso de (graduação em) Ciências Sociais da UFSC. Antes da aula passei pra pegar um café no CAFIL, que é o centro acadêmico de Filosofia da UFSC, onde desenvolvi bastante a habilidade de… jogar xadrez (sério!). A ocasião foi um debate entre um anarquista, um comunista e um liberal. O anarquista pertencia a um coletivo autônomo, o comunista à direção do PC do B e o liberal vocês conhecem deste blog. Claro que o debate foi bem melhor que o texto. Lá vai.

Costuma-se identificar a tradição liberal a partir dos filósofos e economistas da Europa moderna. No entanto um mergulho na história das ideias facilmente leva o pesquisador a identificar o nascedouro do liberalismo na própria origem do pensamento político. O grito “liberdade ou morte!” de Péricles é um caso emblemático de como os antigos gregos tratavam a questão: os homens tornam-se livres quando se unem contra o despotismo, e a liberdade é um valor tão sagrado quanto à própria “vida” humana. Por isso, um grego como Péricles preferia a morte do que uma vida sem liberdade. O fato de encontrarmos o mesmo grito em nossa língua contemporânea – “independência ou morte!”, disse D. Pedro II – reflete o peso que o conceito de liberdade exerce no pensamento e na prática política ao longo da história. No entanto, a mudança social aconteceu, como ela sempre acontece, e atualmente atribuímos diversos outros significados à liberdade.

O caráter individualista do termo foi acentuado e o sentido político está ofuscado (veja-se, por exemplo, os conceitos psicológicos de liberdade). O sentido de autonomia foi acentuado, mas o sentido político continuou ofuscado (a ideia do comércio sem regulação encontra voz aqui). Até mesmo o sentido platônico, em que a liberdade é entendida como uma passagem da ilusão para a realidade, continua presente nos discursos religiosos. Enfim, a liberdade continua sendo um valor de todos os partidos políticos, de todas as revoluções e movimentos sociais. Que significa, portanto, ser um liberal no mundo de hoje? Acredito que significa ser um meio entre extremos, um crítico em meio ao hegemônico, um empírico diante dos teóricos, mas um teórico diante daqueles que buscam deduzir proposições políticas a partir de pressupostos científicos. Em outras palavras, acredito que o liberal é o que olha para o mundo político per se. Quando o marxista extrapola sua busca pela justiça, o liberal defende o anarquista. Quando o anarquista conquista êxito em sua tarefa de diluir a organização social do poder, o liberal torna-se um republicano.

De fato, o liberal compartilha valores com esses dois tipos de ideólogos, os anarquistas e marxistas. Mas quando o desfecho histórico encontra algum inevitável embate, o liberal raramente negará o mundo como ele se nos aparenta, preferindo atuar dentro do contexto dado. A utopia não agrada o liberal: antes do sonho, ele prefere o planejamento. No fundo, o liberal é um institucionalista confesso. Isto não quer dizer que o liberal aceita a tradição sem a refutar. O contrário seria válido, se lembrarmos da importância dos liberais para a inversão na hierarquia de valores humanos ocorridas na modernidade ocidental, quando a quietude cristã deu lugar ao concorrido agito da produção de larga escala, que modificou os padrões de consumo e, enfim, de comportamento social no mundo após o século XVIII. Os marxista enxergam nisto um fenômeno chamado revolução capitalista, e todos nós concordamos que esta mudança trouxe vantagens e desvantagens.

O argumento de que o liberal é um institucionalista se apoia menos nas teorias do que na crença explícita desses atores. A despeito de mudanças que vem ocorrendo nos últimos anos – às quais temos pouco a dizer, do ponto de vista teórico, devido a proximidade – nós costumamos ver os marxistas presente em sindicatos, universidades, grupos de jovens. Os anarquistas são mais raros; os poucos que conheço os vejo ligados às artes. Isto provavelmente se justifica dentro de uma coerência interna de pensamento. Mas os liberais? Bem, no Brasil eles não costumam se identificar. Isto não quer dizer que não existam. Tenho a impressão de que quase todos os profissionais aceitam, mesmo sem o saber, muitos pressupostos liberais. O liberalismo parece ser ideologia que convive de forma mais pacífica com o mundo dos profissionais em que vivemos atualmente. Podemos lembrar do mais grandioso dos sociólogos da profissão: Max Weber.

Só podemos dizer que Weber foi um dos mais célebres liberais, como costuma-se falar, na medida em que buscarmos uma ética por trás de sua ciência. E isto requer apenas interpretação, pois todos os teóricos possuem uma ética implícita. Weber foi o teórico que acreditou em uma determinada engenharia institucional que colocava os partidos políticos como importante canal para que os conflitos se tornassem decisões racionais. Contra a tecnocracia, Weber gostava de ver o âmbito politico da sociedade regulando o Estado e, por consequência, a indústria, o comércio. Mas ele não queria que o Estado regulasse a vida privada. Por vida privada, Weber entendia os valores individuais e/ou familiares, de modo que Weber repudiava a teocracia, embora compreendesse motivos pelos quais alguns povos se organizavam politicamente desse modo.

Se neste momento vocês se perguntarem: ora, mas os marxistas também não são contra a teocracia? Acredito que sim. E quem disse que liberalismo e marxismo são duas correntes tão distantes assim? Nós delineamos essas ideologias o quanto conseguirmos, mas, na prática, os homens não encontram situações em que uma decisão está claramente dentro de um lado ou de outro de uma tipologia ideológica. Então, o mais correto não é o agente (ou o policymaker, na versão policymaking da análise) verificar se a sua ação está dentro daquele princípio que ele acredita certo em razão de uma teoria. O correto, ao meu ver, é o agente tomar decisão a partir de uma decisão independente de teorias. Só a reflexão pode encaminhar a motivação para a boa ação, diria Kant, este grande liberal. É o pensamento que leva o homem a encontrar a diferença entre o Bem e o Mal. A coerência da ação com uma teoria não é capaz de fazer isto. Neste caso, a ação será levada pela teoria, mas a teoria certamente foi formulada a partir de outro contexto.

O marxismo está amparado em uma determinada metafísica (no sentido heideggeriano do terno). Sem dúvida, uma brilhante teoria, mas é apenas uma teoria. Contra isso, o mais forte argumento liberal, como entendo o liberalismo, é aquele em que o agente deve dispensar a teoria e olhar para o mundo. A instalação de uma indústria, por exemplo, pode gerar desigualdade social, mas também pode gerar empregos de modo a levar um desenvolvimento (e uma transferência de renda de longo prazo) que seria inviável sem esta operação. Neste momento, podemos enxergar o Estado como o gabinete da burguesia, mas também podemos enxergá-lo como o motor do desenvolvimento. A opção de é cada um. O que não podemos é jogar a responsabilidade sobre o Estado sem que nós mesmo compartilhemos essa responsabilidade. Não existe guardião da liberdade.

Antes disso, os alunos que formavam a coalizão liberal revisaram as teorias, apresentando os 10 mandamentos liberais de Bertrand Russell, que podem ser encontrados aqui. Depois do texto (meu tempo se esgotou antes do fim), houve um debate quente sobre o futuro do agronegócio e da direita no Brasil.


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