sabedoria

No mundo romano, mas também entre os antigos gregos, a filosofia era uma prática cultural concreta. Os filósofos eram sábios, mas pessoas normais. Debatiam na linguagem comum, diferente do tempo atual. A filosofia profissionalizou-se. O bacharel em filosofia é, com certeza, um técnico em leitura de textos clássicos, mas ninguém ousa a chamá-lo de sábio. Tanto hoje como na antiguidade existem dois tipos de candidatos a sábios: os mais calados e os mais falantes. Os primeiros dizem que o falatório é não-sabedoria, coisa pra políticos e gente que se expressa em termos de senso comum. Aqui, a opinião é desvalorizada e jogada no plano das coisas ilusórias. Contra a opinião, buscam o conhecimento – algo imóvel e expresso em termos de leis universais. Houve um tempo em que eu acreditei nisso. Depois me aproximei da concepção de Karl Jaspers, segundo a qual não a filosofia, mas o filosofar, é uma condição para o debate político, na medida em que a preocupação com o mundo público é uma sucessão do auto-conhecimento. Filosofar, enquanto ação, guarda sempre um forte teor de autoconhecimento, mas a condição social do homem faz da conversa uma pré-condição para o auto-conhecimento. Filosofar, em grande parte, significa conversar – e não apenas pensar em solidão. Além disso, este ditado antigo de que o sábio mora na quietude não fará do mundo um melhor habitat para a humanidade. A sabedoria é uma virtude política mais do que científica. Não é o acúmulo de conhecimentos específicos que define o sábio. Em vez de memorizar doutrinas científicas isoladas, o sábio busca conhecimentos mais genéricos da experiência. Antes a ética do que a ciência social. Os determinantes que tornam um cientista exatamente um cientista fazem com que ele se afaste da sabedoria. É isto também o que diz Heidegger em afirmações como: “a ciência não pensa”. Mas o cientista pode ser algo além do cientista, pode ser um humano. A pesquisa enlatada faz do cientista um técnico. A pesquisa inteligente faz do cientista um intelectual. Mas nenhuma pesquisa gera sabedoria. Em tempos de natal, é válido lembrar deste que foi um sábio: Jesus. Nem falatório e nem quietude, o exemplo de Jesus foi a reflexão, a ação, o diálogo. Assim como Sócrates, Jesus viveu e conversou. Não escreveu nenhum paper, nenhum livro e nenhuma linha sequer. O cientista é um escritor, o sábio é um educador. Educação se transmite não através de textos, mas através de atitudes. Viver e refletir sobre a vida: eis a missão do filósofo.

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