Considerações científicas

A ciência moderna começa quando a experimentação passa a ser valorizada como a metodologia exemplar de geração de conhecimento e apreensão da realidade. Em princípio, isto significava a observação, mas logo a experimentação foi entendida em termos de teste de hipóteses. Em alguns casos, as hipóteses jamais poderão ser observadas, embora possam ser comprovadas. Em parte, este movimento contradiz o impulso da ciência moderna, pois coloca a verdade novamente dependente da abstração do pensamento.

A despeito de todo apelo empirista, a única ciência que jamais caiu em descrédito foi a matemática, justamente aquela fundada unicamente sobre objetos mentais, longe de qualquer experimentação. Pois a matemática, desde Euclides até hoje, está construída sobre definições abstratas que se edificam apenas com auxílio da mente. Mesmo a refundação contemporânea da matemática opera em cima de realidades sem referência ao mundo. As novas matemáticas redefinem conceitos básicos desse modelo e avançam sobre alternativas de pensamento, mas elas ainda são isto: teoremas edificados sobre axiomas; entre eles, a operação do pensamento. Neste sentido podemos dizer que mesmo as geometrias não-euclidianas ainda são, em essência, euclidianas.

Se admitirmos a noção iluminista de ciência, parece que o nosso tempo vive um alargamento das possibilidades do conhecimento. A comunicação entre as sociedades científicas, as ferramentas de observação e de computação de cálculo, o compartilhamento de dados: tudo isto parece mais acessível aos institutos de pesquisas, aos laboratórios, enfim, às universidades. Não vejo motivos para alguém recusar essa evolução de potencial científico. Mas também não podemos admitir o desdém da reflexão, o preconceito moderno contra o uso racional da linguagem. A fenomenologia heideggeriana, por exemplo, extrai do cotidiano a abertura da definição dos objetos, e passa a operar exclusivamente com o uso do pensamento (e suas multifacetadas operações) sobre essa abertura, alcançando conclusões realmente novas. É um absurdo esperar dos filósofos a mesma experimentação de uma pesquisa empírica.

O filósofo usa a infinidade de combinação das palavras (sua percepção aguda dos valores contidos atrás dessas palavras e seu exercitado motor raciocinante) para encontrar um sentido elevado das afirmações do conhecimento. Movesse seu esforço na experimentação, não seria um filósofo, mas um cientista. A filosofia requer a experimentação de toda a vida – o que aproximaria, estritamente por este ângulo, o filósofo do poeta (o ser cujo sentimento do mundo inspira a criação na linguagem). Por definição, a filosofia é meta-científica. O conhecimento será, muitas vezes, colocado sob suspeita. Afinal, mais importante do que ele, em todo caso, é a prática. É assim que os filósofos, como os bons políticos e gestores públicos, buscam o esforço incomensurável de integrar a ciência à ética. Não com a preocupação ética no momento da pesquisa, mas com a preocupação do uso do conhecimento no momento da decisão prática. Ou, como diriam os iluministas, o conhecimento verdadeiro é aquele que está ao dispor da humanidade.

Não devemos, por outro lado, sacrificar a futilidade da pesquisa científica quando ela não apresenta resultado prático imediado. A história da ciência nos mostra a relevância de conhecimentos inúteis para o seu tempo, mas grandiosos para o amadurecimento de novas teorias, a exemplo da geometria não-euclidiana, completamente inútil no século dezenove, e sua poderosa aplicação na teoria da relatividade, no século vinte. O potencial dessa teoria é tão grande que possibilitou o surgimento da nanotecnologia e, sem exagero, da comunicação interplanetária.

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