Tradição e crítica

O mundo nos vem da tradição. Ao nascer recebemos os sentidos atribuídos por aqueles que nos circundam. É inevitável sermos condicionados pela tradição. Não há outro lugar senão o passado para buscarmos as referências do pensamento. Mas este pensamento é, por outro lado, a potência da inovação. A criatividade do pensamento é capaz de imaginar novos conceitos, mas só a ação pode torná-los realizações, assim como a fabricação pode torná-los produtos. A pergunta fundamental da política é: o que devemos mudar? Os posicionamentos no debate surgem devido ao modo como cada assunto nos envolve.

Quando a questão da mudança é colocada, surge o movimento de reação. Este é o movimento de valorização da tradição instituída. A crítica é a reflexão comunicada sobre a questão colocada. O diálogo político pode ser entendido como uma dialética, o confronto de posicionamentos. Neste momento, a liberdade aparece quando a dignidade humana se faz presente, quando a pluralidade é valorizada mais do que a cegueira da minha opinião. O perigo da colocação política (o que devemos mudar) é a anulação da liberdade. O inimigo da liberdade é o fundamentalismo, quando a violência prevalece sobre a educação.

O conservadorismo é uma atitude de aprisionamento do mundo. Já a revolução significa a profunda transformação do mundo. Estas posturas extremas, acentuadas em momentos de tensão política, correspondem a fundamentalismos. Aquele que busca a revolução em momentos de paz e liberdade é tão fundamentalista como aquele que busca a manutenção da ordem em momentos despóticos. Ambos recusam a liberdade. Esta aparece somente na igualdade, na aceitação da diferença. Somente aquele disposto a interpretar a opinião alheia está apto para exercê-la. Quem recusa essa tarefa utiliza a liberdade contra ela. Acredita que a sua opinião vale mais do que a liberdade. Mente para si mesmo, acreditando cegamente que a sua visão é a única que resguarda a liberdade. Isto é evidentemente falso, porque a liberdade é a uma obra de todos, mas uma obra sempre em construção. Os fundamentalistas degeneram a política. Acreditam que sua opinião singular deve se impor a qualquer custo sobre o mundo. Para isso, usam o debate não para a reflexão crítica, mas para a agressão.

Tanto a tradição como a crítica são forças presentes na história. É claro que não estamos falando da força física, mas da força humana, contida na esfera prática, proveniente da sinergia criada pela confiança dirigida para um propósito. A tradição engloba tudo. A crítica é a abertura da mudança. Mas a crítica não é, por si, o caminho da mudança. A crítica busca, na experiência da tradição, os erros e os acertos, para mudar e para manter. Afinal, todos os valores que regem a crítica são frutos da tradição mundana. Os valores pesam por trás dos argumentos. A beleza dos valores, por um lado, e o pragmatismo da opção sinalizada, por outro lado, determinam os melhores argumentos políticos. Os fins e os meios são ambas categorias necessárias para uma boa avaliação dos argumentos políticos. Defensora da liberdade, a crítica da crítica se dirige para a forma como esta apresenta seus apontamentos no debate. Uma boa crítica resguarda elegância em vez de agressão. A beleza da crítica está na forma como ela se apropria da tradição para reconduzir o futuro do mundo.

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