O trabalho

O trabalho constrói artifícios. A artificialidade do mundo equivale à naturalidade do universo. O mundo está repleto de artifícios construídos pela mão humana e por seus instrumentos (construídos pelo próprio homem). Somos um corpo. O movimento pré-determinado do corpo se chama trabalho. O resultado do trabalho é o senhor dessa pré-determinação. Trabalhamos ao mover nossas mãos treinadas para pegar e transformar objetos do mundo. Entre as mãos e os objetos pode haver um instrumento, que também é um já artifício. O instrumento facilita e, em alguns casos, permite o trabalho sobre o mundo. Modelamos o mundo com a nossa força de trabalho. Aquilo que resultará do trabalho, em todo caso, está determinado antes dele. Por isso não cogitamos se o trabalho é previsível ou imprevisível, mas se o trabalho é eficiente ou ineficiente. Quem trabalha busca a obra feita pelo processo do trabalho. Ineficiente é o trabalho desnecessário.

Somos obrigados a trabalhar. A obrigação define o trabalho. Por isso, o trabalho é um tipo de atividade governado pela necessidade. Podemos encontrar uma dignidade ou um prazer no trabalho, mas isto não equivale a amar a atividade do trabalho. O trabalho é uma necessidade voltada para um fim. Originando a finalidade, a ação inaugura a necessidade do trabalho.  A livre experiência das mãos com os objetos não é trabalho. Mesmo quando o fruto do trabalho corresponde a qualquer coisa desnecessária à sobrevivência (as obras de arte, por exemplo), trabalhamos não porque gostamos do processo do trabalho, mas porque amamos o que dele resulta.

Sem o trabalho não sobreviveríamos. Com o trabalho, somos abrigados por um mundo de objetos que nos envolve. Assim, a casa nos protege do frio, a cadeira nos permite sentar equilibrado, o vinho nos aquece a alma. Todos os objetos construídos ganham sentido mundano. Este artifício é a nossa condição ao mesmo tempo em que ele é nossa construção. Herdamos este mundo. Não herdamos o trabalho dos antepassados, mas os objetos criados pelo trabalho deles, assim como as histórias contadas pela sua memória.

O trabalho não pode ser acumulado e estocado em algum depósito. Ele termina depois de executado, mas a obra construída pelo trabalho continua. Essa continuação corresponde à durabilidade. Ainda hoje temos conhecimento de obras que duram séculos. Assim, o trabalhador pode deixar objetos além de sua vida. Os objetos que permanecem são agregados ao mundo. Estes são os objetos que manipulamos, consumimos e até contemplamos. Partes de nós, eles envolvem nossa caminhada até a morte. Com eles nós existimos, sendo condicionados pelos artifícios que originamos.

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Uma resposta to “O trabalho”

  1. maura soares Says:

    Alguém já disse certa ocasião: “o trabalho é a santificação da criatura”. Pois bem, a ociosidade torna o Ser indolente, à merce da manipulação de pessoas que não querem o bem, e sim formar massa de manobra. Concordo quando dizes “trabalhamos não porque gostamos do processo do trabalho, mas porque amamos o que dele resulta”. Nada melhor do que iniciar uma determinada tarefa e ao executá-la fazermos com amor, com capricho. O resultado será excelente. O trabalho feito com atenção, com carinho, dá uma satisfação enorme. Bem que gostaríamos de ficar de papo pro ar, tomando margueritas no Caribe, mas a máquina, a engrenagem precisa de alguém que a execute e aí entra aquele que se dedica. abs maura

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