Ciência das ciências

Podemos distinguir claramente duas diferentes noções do que seja a ciência. De um lado, um conteúdo amplo: a ciência vinculada ao conhecimento propriamente dito. Este é um casamento entre sabedoria e virtude. De outro lado, a ciência vinculada a um conhecimento específico. Resultante de uma ou outra investigação, encontramos as muitas ciências. Este é um conceito caro à modernidade e ao acumulo de conhecimentos obtidos pelas instituições de pesquisa profissional. Para efeitos de clareza, chamaremos o primeiro conceito de Ciência e o segundo de ciência.

Cairá em contradição quem pretende rejeitar a ciência em nome da Ciência. Ao fazê-lo o sujeito ofenderá a própria Ciência. Afinal, as diversas ciências aumentam o poder da razão humana em geral. A fabricação do conhecimento é também condição para a sua utilidade. Tão ignorante é quem arroga superioridade da ciência por sobre a Ciência. Eis o tipo de cientista míope dentro de sua própria bolha. A Ciência advém de tudo o que uma vida individual é capaz de absorver na reflexão do todo existente. Já a ciência é menos absorção do que uma fabricação de conhecimentos pontuais localizados na fronteira daquilo que já se conheceu até hoje.

Quando dedicamos boa parte de nossas vidas para aumentarmos o nosso conhecimento, estamos, agora, mais aptos a tomar decisões, a enfrentar desafios e, enfim, a agir corretamente. No entanto, quando as comunidades de pesquisadores se reúnem em congressos científicos, realizam debates acerca de pesquisas, os resultados e os processos de fabricação das mesmas. A Ciência está entre a teoria e a prática, enquanto a ciência está entre a teoria e o objeto investigado. O primeiro caso coloca a ciência ao lado da ética, porque visa o que é melhor. Já o segundo caso coloca a ética ao lado da ciência, porque a evolução do conhecimento é o fim primário.

Nos congressos científicos, a evolução do mundo é um pano de fundo, um objetivo evidente, porém secundário. Acontece diferente com as assembleias políticas, o fórum no qual o resultado das ações é o que prevalece como argumento de convencimento. Gostaríamos que a Ciência estivesse presente tanto na discussão epistêmica como na discussão política. O progresso da ciência empírica não garante a melhoria da humanidade, assim como a ação é a prova mais concreta do teu pensamento. O conceito amplo de ciência é manifestado apenas no momento da ação.

Nenhuma das duas versões pode ser dissociada da aplicação. Isto quer dizer que o uso é, ao final das contas, o sentido da ciência. Ambas reconhecem que a ciência está ao serviço da prática humana. Mas além da ciência, a prática exige arte. Lembremo-nos da antiguidade helena. Os atenienses educavam as crianças em música, porque, diferente dos espartanos, acreditavam que a ginástica não era suficiente para promover uma boa sociedade. Já a matemática ou a astronomia era coisa que só aprendia quem frequentasse escolas de filosofia – algo que não existia em Esparta. A medicina, a náutica, a estratégia eram consideradas artes, isto é, habilidades que se aprende com a experiência. Precisamos chamar atenção para o um falso pressuposto de que a ciência empírica deva guiar a ação. Mas ela deve poder ser um instrumento da reflexão.

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