O ser

Prólogo: A frase “qualquer coisa é” desperta alguma contestação? Por acaso algo não é? Não sendo não é, mas sendo é. A inexistência de um ser, já que é um ser, é um reconhecimento de um modo de ser daquilo que não se quer ser. A negação de um ser é uma forma de definir o escopo do ser referido. Somente o nada não é, mas o nada foge ao “qualquer”, ele está fora do “todo”. Qualquer coisa é; portanto, tudo possui um ser.

O ser equivale ao mais impalpável e impensável. Tudo, em alguma medida, é. Mas essas todas coisas são os seres. De fato, existem muitas coisas. Com exceção do ser, todas elas são determinações específicas. Como elas chegaram a ser? Somente o ser apenas é. Inevitável, então, que nada determine o ser, e que ele determine tudo.

O ser está em tudo, porque tudo recebe uma definição. Definir significa estabelecer a forma de alguma coisa. A forma impõe limite: a coisa vai até aqui, deixando de ser aquilo outro. Considerando que o ser é a vida da definição – pois A precisa ser A, e não ser B; a não ser que B seja A – podemos afirmar que tudo o que existe recebe uma existência a partir do ser. É como se o ser pintasse as cores da existência de cada coisa. Tudo existe como objeto de um pensamento já sempre envolto na existência.

O pensamento é apenas uma das partes de tudo o que pode ser. Sem o pensamento jamais chegaríamos ao mundo. É no mundo que o ser se abre para nós. Mas nós somos. E ao ser nós já fomos englobados pela existência. A rigor, o ser se abre, no jogo das existências, para si mesmo.

Este é um jogo que o universo não vê. O mundo confere existência ao universo. Mesmo a infinitude do universo obscurece o caminho do ser, porque todo espaço apenas é. Não o ser, mas o universo é infinito. Isto não quer dizer que podemos encontrar um ponto final para o ser. Ao contrário, o ser dispensa o espaço.

Verdade que o ser também dispensa a eternidade, porque ele sofre com o próprio jogo da geração e corrupção de tudo o que existe. Tudo o que é eterno não possui início nem fim. Portanto, a eternidade coloca o próprio tempo dentro de um envelope. Se a eternidade existe, então ela foi englobada pelo ser. A eternidade nós a encontramos apenas em forma de simulação, porque, afinal, nunca tocamos no ser, apenas nos diversos seres.

As múltiplas coisas são. Existem tantas coisas no mundo! Será que alguma delas pode ser de modo incondicional? Esta é a pergunta que nos conduz para a desconfiança do ser. Uma desconfiança que merece um caminho, o caminho do ser: possibilidade de sua abertura, encontrada no pensamento humano dentro do mundo.

Esse caminho rapidamente vai encontrar uma bifurcação para onde você pode seguir buscando a unidade ou se desviar pela multiplicidade. A unidade é um caminho sem fim. A multiplicidade é a única saída para encontrar as respostas sempre passíveis, todavia, de contradição. Este caminho invisível reside apenas no pensamento. Na medida em que o pensamento depende das definições, toda tentativa de pensar o ser já pressupôs de modo passivo a existência.

Porque tudo o que é, no universo ou no mundo, deixa de ser. O vir-a-ser significa ambos nascimento e morte. Tudo está sujeito ao fluxo da geração e corrupção. Ao explicar as leis desse movimento, a ciência decifra o universo. Ao participar desse movimento os homens existem na história, influenciados pelo espírito do tempo.

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