Esquartejando por fé

9 Fevereiro, 2016

De irresponsabilidade o mundo já está cheio. Da fraqueza e de seres rastejante que perpetram a vergonha do mundo. De gente morta de espírito; agem como um farol apagado no meio do oceano. São pessoas ativas, elas atrapalham, perambulam, vivem das cinzas de algum fóssil terrestre, com a secreção venenosa do fogo. Estes cinzeiros, pessoas feitas para receber a poeira do atraso, continuarão por aí: contaminando os isentos, falsificando as esperanças. Elas falam pelos cantos, e depois voltam para casa, mas antes disso falam e se escondem abaixo da costumaz sujeira que eles insistem em chamar de intelectualidade.

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corte

6 Novembro, 2014

tudo em queda
dívida sobe

a guerra

11 Setembro, 2013

Maravilhoso o Sol brilha para todos os povos. Por que então a guerra?
É pelos direitos roubados.
Querem progresso?
Não sem liberdade.
Quando vamos parar?
O sol brilha em paz.

Desenvolvimento

6 Agosto, 2013

A cada cidade
a cada dia
nossa responsabilidade
só aumenta

smile

7 Janeiro, 2013

smile

Privado: Substância

28 Novembro, 2012

A cena é um gramado sem cercado, não distante do mar calmo. Um vovô cuidando dos netos, que brincam com o gato persa:

“Pietro, ele vai te arranhar! Maria Antônia, não puxa pelo rabo!”

E assim permanecem por um tempo que se equivale a uma eternidade de cada microssegundo. Aparece Maria Luiza, a mãe desses filhos, oferecendo uva verde em uma cesta. De rosto ela é muito parecida com a sua mãe, que observa da janela sem falar nada. O sorriso imperceptível carrega os estrelatos éticos de uma vida realizada, tudo menos importante do que aquele instante.

O ser

23 Novembro, 2012

Prólogo: A frase “qualquer coisa é” desperta alguma contestação? Por acaso algo não é? Não sendo não é, mas sendo é. A inexistência de um ser, já que é um ser, é um reconhecimento de um modo de ser daquilo que não se quer ser. A negação de um ser é uma forma de definir o escopo do ser referido. Somente o nada não é, mas o nada foge ao “qualquer”, ele está fora do “todo”. Qualquer coisa é; portanto, tudo possui um ser.

O ser equivale ao mais impalpável e impensável. Tudo, em alguma medida, é. Mas essas todas coisas são os seres. De fato, existem muitas coisas. Com exceção do ser, todas elas são determinações específicas. Como elas chegaram a ser? Somente o ser apenas é. Inevitável, então, que nada determine o ser, e que ele determine tudo.

O ser está em tudo, porque tudo recebe uma definição. Definir significa estabelecer a forma de alguma coisa. A forma impõe limite: a coisa vai até aqui, deixando de ser aquilo outro. Considerando que o ser é a vida da definição – pois A precisa ser A, e não ser B; a não ser que B seja A – podemos afirmar que tudo o que existe recebe uma existência a partir do ser. É como se o ser pintasse as cores da existência de cada coisa. Tudo existe como objeto de um pensamento já sempre envolto na existência.

O pensamento é apenas uma das partes de tudo o que pode ser. Sem o pensamento jamais chegaríamos ao mundo. É no mundo que o ser se abre para nós. Mas nós somos. E ao ser nós já fomos englobados pela existência. A rigor, o ser se abre, no jogo das existências, para si mesmo.

Este é um jogo que o universo não vê. O mundo confere existência ao universo. Mesmo a infinitude do universo obscurece o caminho do ser, porque todo espaço apenas é. Não o ser, mas o universo é infinito. Isto não quer dizer que podemos encontrar um ponto final para o ser. Ao contrário, o ser dispensa o espaço.

Verdade que o ser também dispensa a eternidade, porque ele sofre com o próprio jogo da geração e corrupção de tudo o que existe. Tudo o que é eterno não possui início nem fim. Portanto, a eternidade coloca o próprio tempo dentro de um envelope. Se a eternidade existe, então ela foi englobada pelo ser. A eternidade nós a encontramos apenas em forma de simulação, porque, afinal, nunca tocamos no ser, apenas nos diversos seres.

As múltiplas coisas são. Existem tantas coisas no mundo! Será que alguma delas pode ser de modo incondicional? Esta é a pergunta que nos conduz para a desconfiança do ser. Uma desconfiança que merece um caminho, o caminho do ser: possibilidade de sua abertura, encontrada no pensamento humano dentro do mundo.

Esse caminho rapidamente vai encontrar uma bifurcação para onde você pode seguir buscando a unidade ou se desviar pela multiplicidade. A unidade é um caminho sem fim. A multiplicidade é a única saída para encontrar as respostas sempre passíveis, todavia, de contradição. Este caminho invisível reside apenas no pensamento. Na medida em que o pensamento depende das definições, toda tentativa de pensar o ser já pressupôs de modo passivo a existência.

Porque tudo o que é, no universo ou no mundo, deixa de ser. O vir-a-ser significa ambos nascimento e morte. Tudo está sujeito ao fluxo da geração e corrupção. Ao explicar as leis desse movimento, a ciência decifra o universo. Ao participar desse movimento os homens existem na história, influenciados pelo espírito do tempo.

Ciência das ciências

16 Novembro, 2012

Podemos distinguir claramente duas diferentes noções do que seja a ciência. De um lado, um conteúdo amplo: a ciência vinculada ao conhecimento propriamente dito. Este é um casamento entre sabedoria e virtude. De outro lado, a ciência vinculada a um conhecimento específico. Resultante de uma ou outra investigação, encontramos as muitas ciências. Este é um conceito caro à modernidade e ao acumulo de conhecimentos obtidos pelas instituições de pesquisa profissional. Para efeitos de clareza, chamaremos o primeiro conceito de Ciência e o segundo de ciência.

Cairá em contradição quem pretende rejeitar a ciência em nome da Ciência. Ao fazê-lo o sujeito ofenderá a própria Ciência. Afinal, as diversas ciências aumentam o poder da razão humana em geral. A fabricação do conhecimento é também condição para a sua utilidade. Tão ignorante é quem arroga superioridade da ciência por sobre a Ciência. Eis o tipo de cientista míope dentro de sua própria bolha. A Ciência advém de tudo o que uma vida individual é capaz de absorver na reflexão do todo existente. Já a ciência é menos absorção do que uma fabricação de conhecimentos pontuais localizados na fronteira daquilo que já se conheceu até hoje.

Quando dedicamos boa parte de nossas vidas para aumentarmos o nosso conhecimento, estamos, agora, mais aptos a tomar decisões, a enfrentar desafios e, enfim, a agir corretamente. No entanto, quando as comunidades de pesquisadores se reúnem em congressos científicos, realizam debates acerca de pesquisas, os resultados e os processos de fabricação das mesmas. A Ciência está entre a teoria e a prática, enquanto a ciência está entre a teoria e o objeto investigado. O primeiro caso coloca a ciência ao lado da ética, porque visa o que é melhor. Já o segundo caso coloca a ética ao lado da ciência, porque a evolução do conhecimento é o fim primário.

Nos congressos científicos, a evolução do mundo é um pano de fundo, um objetivo evidente, porém secundário. Acontece diferente com as assembleias políticas, o fórum no qual o resultado das ações é o que prevalece como argumento de convencimento. Gostaríamos que a Ciência estivesse presente tanto na discussão epistêmica como na discussão política. O progresso da ciência empírica não garante a melhoria da humanidade, assim como a ação é a prova mais concreta do teu pensamento. O conceito amplo de ciência é manifestado apenas no momento da ação.

Nenhuma das duas versões pode ser dissociada da aplicação. Isto quer dizer que o uso é, ao final das contas, o sentido da ciência. Ambas reconhecem que a ciência está ao serviço da prática humana. Mas além da ciência, a prática exige arte. Lembremo-nos da antiguidade helena. Os atenienses educavam as crianças em música, porque, diferente dos espartanos, acreditavam que a ginástica não era suficiente para promover uma boa sociedade. Já a matemática ou a astronomia era coisa que só aprendia quem frequentasse escolas de filosofia – algo que não existia em Esparta. A medicina, a náutica, a estratégia eram consideradas artes, isto é, habilidades que se aprende com a experiência. Precisamos chamar atenção para o um falso pressuposto de que a ciência empírica deva guiar a ação. Mas ela deve poder ser um instrumento da reflexão.

Rerum

30 Outubro, 2012

Do caminho natural
no menor espaço a
suficiência
Úmido broto sobre o outro
Encobertos detalhes silenciosos
cercados pela imunidade do ser

O trabalho

22 Maio, 2012

O trabalho constrói artifícios. A artificialidade do mundo equivale à naturalidade do universo. O mundo está repleto de artifícios construídos pela mão humana e por seus instrumentos (construídos pelo próprio homem). Somos um corpo. O movimento pré-determinado do corpo se chama trabalho. O resultado do trabalho é o senhor dessa pré-determinação. Trabalhamos ao mover nossas mãos treinadas para pegar e transformar objetos do mundo. Entre as mãos e os objetos pode haver um instrumento, que também é um já artifício. O instrumento facilita e, em alguns casos, permite o trabalho sobre o mundo. Modelamos o mundo com a nossa força de trabalho. Aquilo que resultará do trabalho, em todo caso, está determinado antes dele. Por isso não cogitamos se o trabalho é previsível ou imprevisível, mas se o trabalho é eficiente ou ineficiente. Quem trabalha busca a obra feita pelo processo do trabalho. Ineficiente é o trabalho desnecessário.

Somos obrigados a trabalhar. A obrigação define o trabalho. Por isso, o trabalho é um tipo de atividade governado pela necessidade. Podemos encontrar uma dignidade ou um prazer no trabalho, mas isto não equivale a amar a atividade do trabalho. O trabalho é uma necessidade voltada para um fim. Originando a finalidade, a ação inaugura a necessidade do trabalho.  A livre experiência das mãos com os objetos não é trabalho. Mesmo quando o fruto do trabalho corresponde a qualquer coisa desnecessária à sobrevivência (as obras de arte, por exemplo), trabalhamos não porque gostamos do processo do trabalho, mas porque amamos o que dele resulta.

Sem o trabalho não sobreviveríamos. Com o trabalho, somos abrigados por um mundo de objetos que nos envolve. Assim, a casa nos protege do frio, a cadeira nos permite sentar equilibrado, o vinho nos aquece a alma. Todos os objetos construídos ganham sentido mundano. Este artifício é a nossa condição ao mesmo tempo em que ele é nossa construção. Herdamos este mundo. Não herdamos o trabalho dos antepassados, mas os objetos criados pelo trabalho deles, assim como as histórias contadas pela sua memória.

O trabalho não pode ser acumulado e estocado em algum depósito. Ele termina depois de executado, mas a obra construída pelo trabalho continua. Essa continuação corresponde à durabilidade. Ainda hoje temos conhecimento de obras que duram séculos. Assim, o trabalhador pode deixar objetos além de sua vida. Os objetos que permanecem são agregados ao mundo. Estes são os objetos que manipulamos, consumimos e até contemplamos. Partes de nós, eles envolvem nossa caminhada até a morte. Com eles nós existimos, sendo condicionados pelos artifícios que originamos.