Livre-merado é a utopia de um mercado sem regulações institucionais. É o sonho de um espaço de trocas de mercadorias (produtos, serviços, dinheiro) em que os atores econômicos – ausentes dos constrangimentos de leis, governos e corporações – possam competir entre si. Supõe-se que a alocação natural dos recursos, em um tal mercado, levaria a uma melhor distribuição dos bens. Isto diz, no canto do ouvindo, que haveria abundância e igualdade de riqueza entre os players do game. Ao nível teórico, a tese é contestável. Ao nível empírico, jamais teremos dados para verificá-la. Não passa de uma u-topia ou de um modelo matemático. O livre-mercado existiria apenas em condições artificiais: precisaria de quem regulasse a não-regulação, ou seja, de quem impedisse as instituições de regularem os competidores. Mas esse alguém não competiria? Parece evidente que, se o competidor é estrategista, se ele é “racional”, nos termos da microeconomia, não gastará tempo impedindo a regulação. Ao contrário, usará a regulação a seu favor, desviando dos constrangimentos e manipulando-os contra seus adversários. Por isso, aquele que defende o livre mercado não é, ele mesmo, um bom competidor. Se, por algum motivo, alguém fosse capaz de instituir um livre-mercado, essa pessoa não poderia competir. Deveria, ao contrário, lutar e garantir a ausência de regulação, pois, do contrário, deixaria a regulação livre para voltar à cena. Livre-mercado é como um princípio e um fim, como o reino comunista, dessas coisas jamais existentes, mas orientadoras de alguns espíritos bem assombrados.
Para a mocidade que ouvia com gosto os Strokes, a notícia soa bem: álbum novo do Julian Casablancas na praça. O músico buscou elementos outros para distanciar a sua música dos hits da sua banda. Não foi longe. Continuam aqueles solos de guitarra acompanhando o vocal, ao estilo Is this It. Continuam as batidas quebrando ligeiras na caixa, com menos variação, porém, donde escapa uma impressão mais assim… eletrônica. Uma impressão fortalecida pelo exagero no teclado. Aquele vocal abafado e distorcido permaneceu em algumas músicas, como River at Brakelights, Glass e Out of Blue. Mas não foi suficiente para garantir o estilão roqueiro. Os alongamentos vocálicos (leia-se, os gritos) foram substituídos por um canto mais doce – e pop. Da primeira a última música, um clima space-based acompanha as melodias. Algo não necessariamente cibernético, mas certamente espacial, às vezes remetendo o ouvindo a dimensões dignas de um ufonauta. Não à toa, a oitava e última faixa se chama 11th Dimension – uma música para tocar na balada. Sabe lá qual foi a inspiração de Julian, se apenas a fixação por teclado, tentativa de 80’s revival, experiências com yôga ou real necessidade de viagem astral. A quem desejar possa, o álbum deixa margens de inspirações country, latinas e até R&B, todas elas sintetizadas no título. Phrazes for the young, para confirmar a tese de Oscar Wild, que em 1894 escreveu: ser prematuro é ser perfeito.
Iniciei hoje o tardio projeto de leituras de Karl Jaspers, um projeto jamais planejado formalmente e nem mesmo antecipado entre o grupo das preocupações prioritárias. Lá no interior da consciência, porém, uma voz gritante me ordenava conhecer imediatamente esse fantástico pensador. Desde que observei, em certo texto, a dedicatória de Hannah Arendt a seu mestre minha curiosidade foi aguçada. E a cada citação mais e mais aumentou o interesse. Karl Jaspers. Conforme suspeitei, em suas obras está presente parte das grandes noções arendtianas: liberdade como possibilidade, pluralidade como condição humana, comunicação como revelação existencial. Tudo isso foi por demais revelador. A comunicação é a “luta que o ser humano singular trava pela existência, ao mesmo tempo pela sua e pela [existência] do outro” (Philosophie, II). A liberdade, a abertura da liberdade, significa, para Jaspers, a exclusão de qualquer poder que condicione a existência do outro e própria. Um conceito plural de liberdade, diferente da classificação de Isaiah Berlin, em que liberdade negativa é contrária à liberdade positiva. Não. Em Karl Jaspers e Hannah Arendt a liberdade também é negativa: também se define por ausência de imposições. A teoria democrática dominante se ancora por sobre um conceito de liberdade, embora fundamental, limitado. E este conceito não se chama liberdade negativa, mas liberdade individual. Toda liberdade é, em certo ponto, negativa. Os liberais precisam rever seus fundamentos, precisam entender que a psicologia não nasceu apenas para curar pacientes; dela é possível extrair achados teóricos para pensar a política, as ciências e a filosofia. Precisamos ler com atenção Karl Jaspers.
Mais de um ano se passou desde que este blog veio a ser. Daquela época até os dias presentes nada mudou, exceto tudo. Assim dito, um aparente erro de linguagem. É um acerto, no entanto. Em algum lugar da linguagem, tudo é, por essência, nada. O uso dessas duas palavras extremas (tudo e nada) diz pouco a respeito do objeto e muito a respeito do sujeito. Indica que, sobre o assunto, não conhece ou não quer falar. Uma ambigüidade proposital, para este caso. Não conhecendo o assunto, o autor se arrisca na mesma incerteza manifesta pelo ditado popular “tudo ou nada”. Já quando a vontade do autor é se esquivar, nada melhor do que um juízo universal e genérico: tudo é, nada é.
Vinte mil acessos. O que nos quer dizer essa informação? Lendo as estatísticas do wordpress, podemos analisar não quem, mas como se acessa o blog. Cerca de 30% provém de mecanismos de busca. Pouco, aproximadamente 5% acessam clicando em links de twitter ou del.icio.us ou outros blogs. Quanto ao restante o wordpress não responde. As pessoas que por aqui vagueiam provavelmente não se conhecem, não é algo que podemos chamar de comunidade. São curiosos, errantes da cyberculture, advindos por motivos obscuros, com variação da opção política acentuada, conforme os 104 respondentes da enquete revelaram:
Os fatos levam a crer que, para infelicidade dos apareciadores do futebol-arte, não veremos o par Ronaldo (gordo) e Ronaldinho (gaúcho) bailando nos campos africanos da próxima Copa do Mundo. Cada jogo da seleção verei com imensa saudade deles. Se a taça não vier junto com Dunga para este lado do Atlântico, motivo já o tenho para reclamar.
O elástico de Ronaldinho apresenta duas características próprias, que o elevam em beleza única. É preciso observar, em primeiro lugar, a distância percorrida pela bola presa aos seus pés: não se compara a nenhuma outra jogada semelhante. A forma como ele carrega a bola para a direita e a extensão com que sua perna vai para o lado conferem toda falsa certeza ao marcador, que decide marcá-lo indubitavelmente naquela direção. Mas além dessa característica, que por si só supera todos os elásticos jamais visto no futebol, Ronaldinho se apresenta como uma fera preste a dar o bote. Vejam o impulso de seu corpo. É como se ele tivesse se atirando para cima do adversário. É como se um Gorila robusto e feroz estivesse saltando sobre a presa. Toda a força com que seu peso é jogado para frente lhe garante uma velocidade infalível no momento de puxar a bola para a esquerda. Nesse instante, é lógico, o adversário, perplexo, ainda está pensando em marcá-lo no lado errado. Ilusão e medo juntos são dois ingredientes da proeza que é esse elástico.
Papai Nobel distribuiu seus prêmios para a imortalidade de alguns mortais. Momento de festa. Só que neste ano, uma festa tão mais invejada e criticada. Surpresa maior foi Obama vencedor do prêmio da Paz. Banalizou o prêmio, mas foi politicamente interessante. Nas sempre belas palavras de Saramago encontrei a melhor definição da oferenda: foi, a bem da verdade, um “investimento” no presidente com maior peso nas negociações internacionais. Quer queiram quer não, um dia nós admitimos que o atual globo terrestre fosse divido por estados nacionais. E assim a história vem caminhando em um ritmo considerado legítimo, ainda que muitos consigamos acompanhá-lo somente com ajuda de psicoterapeutas. O prêmio de literatura também espantou os críticos de plantão. Muitos dentre melhores nem sequer haviam lido a senhora Herta Müller, aguçando ainda mais a curiosidade para, enfim, conhecer sua obra. Deixemos de lado os outros prêmios, pois vim aqui para falar do prêmio de economia. Não para falar muito, e sim para deixar registrado um sentimento de ausência. Desta vez não um, mas dois economistas do estilo “institucionalista” ganharam o prêmio Nobel. É a primeira vez que vi ganhá-lo um autor já citado por mim. Apesar de surpreso e, até diria feliz, fiquei com uma impressão sinceramente, sei lá, vazia. Legal o trabalho de Ostrom: pesquisas redondinhas, cientificamente rigorosas e relevantes. Mas um olhar mais geral não aponta nenhuma inovação teórica. É mais do mesmo. Digo isto apenas no sentido amplo, sem desmerecer o trabalho dos vencedores. Porque o chamado neo-institucionalismo é um acréscimo tão pequenino na teoria econômica, que… ok. Possibilitou um montão de pesquisas empíricas novas e importantes e tudo mais. Mas vejam: os atuais vencedores nem foram os primeiros laureados com o Nobel a utilizar a teoria neo-institucional. O Nobel é só isso?
Talvez porque, antes, eu desconhecia antecipadamente os ganhadores, permanecia neles alguma cortina mística de genialidade. Talvez. Eu é que não deveria esperar tanto de um prêmio Nobel. Seu propósito nunca foi outro senão conferir honrarias à contribuição científica paradigmática. Pode ser que as grandes transformações científicas jamais sejam laureadas com um Nobel. E que bom que existe um Nobel. Tem mais é que incentivar os engenheiros da ciência.
Não é simples entender a macro política ambiental brasileira. Interesses e argumentos ainda nos aparecem distorcidos ou amorfos, cambaleando entre as possíveis combinações de progresso econômico e proteção ambiental, sejam estas combinações complementares entre si, sejam elas, ao contrário, como um jogo de soma zero. Não só as ONG’s ambientalistas, como também as entidades representativas dos setores econômicos divergem umas das outras, e divergem de modo aparentemente desordenado. Não à toa, portanto, assistimos à enorme confusão na política ambiental do atual governo federal; uma confusão de proporção tal, que lançou à arena dois nobres gladiadores públicos, Marina Silva e Mangabeira Unger. Quero me aproximar de pessoas que entendam a dinâmica da política ambiental. Aceito sugestões de autores, pensadores, engenheiros, jornalistas, enfim, quem quer que encontre ordem nesse caos de informações. O assunto é de importância magna: ninguém compreenderá o Brasil sem localizar o exato ponteiro deste debate. Não basta virar o rosto ao passado, mas, concordo, sem a história ninguém explicará nada. O assunto é complexo. Bem sei que as pressões internacionais pela proteção ambiental brasileira não são desprezíveis, assim como não as são aquelas doces taxas de lucro do agronegócio. A questão é: todos esses interesses não se apresentam em gavetas bem organizadas. Ora, ninguém recusa as principais leis federais sobre o assunto, a exemplo da Lei da Mata Atlântica e da Lei de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Em princípio, a proteção ambiental ganhou status de valor moral inquestionável. Há cerca de cem anos, duvido que alguém imaginasse liberalização sexual seria moralmente menos condenável do que escoamento de óleo de cozinha pelo ralo da pia. Torna complexa a compreensão política justamente a característica em voga: não são os valores que estão em jogo. Se assim o fosse, tudo seria facilmente explicado, mas não é Fla verus Flu, não é direito ao aborto verus vida de um embrião. O que realmente está em disputa? Supor que as empresas buscam seus lucros não passa de um simples ponto de partida, que em si não traz nenhuma conclusão mais sofisticada. Uma leitura material dos interesses das entidades representativas, ao meu ver, requer detalhar quais tipos de produção realmente demandam degradação ambiental. O Congresso Nacional sempre foi um bom lugar para encontrar quem é quem na política brasileira, mas até mesmo a tradicional bancada ruralista, como em poucos casos de nossa história, encontra-se dividida. Você – arrisca um palpite?
Enfim o espírito absoluto, essa profecia de Hegel, parecia soprar um pouco de Razão pelos ares de Brasília. Razão para guiar os homens de terno e gravata, que discutiam e votavam nossa mini-reforma eleitoral. De certo, mudaram leis que regularão, com o ferro da justiça eleitoral e o fogo de adversários, as próximas eleições no país (fora da Europa) da Oktoberfest e do Carnaval.
Envoltos pelo espírito absoluto ou não, nossos congressistas (ufa!) libertaram a expressão virtual dos grilhões do século XIX, bem como o voto em trânsito dos nossos viajantes. Já não precisamos temer, caros internautas, as punições por escrever livremente nos posts de nossos blogs e nos perfis das nossas redes sociais. Também agora podemos votar mesmo longe de nosso distrito eleitoral. Nada como um feriado político! E pronto. Termina por aqui a dose de razão humana deste biênio. As próximas mudanças ficam para a próxima eleição, ok? Verdade que algumas são, digamos, reformas urgentes. Entre elas, o fim das coligações proporcionais. Afinal, quem ainda defende esse tipo de coligação?! Ficou comprovado! Há tempos alguns partidos se utilizam delas para vender o seu espaço na TV como se fosse… seu. Quer dizer, o horário é pago pelos cofres públicos, pois acreditávamos em direitos iguais para divulgação de projetos. Ninguém criou a lei para legendas nanicas venderem seus espaços de mídia a partidos grandes. Desse jeito, não há espírito absoluto que resolva. É importante que se entenda: as leis e os desenhos institucionais são muito, muito importantes, mas não suficientes para garantir uma plena democracia, se é que alguma possa existir. Tão essencial é a educação nas esferas pública e privada: a dinâmica social de cidadãos livres, que cotidianamente elevem o mundo para níveis cada vez mais superiores. É exatamente isso o que afirmava Hegel na sua filosofia do direito. Nós somos o espírito absoluto, nós somos Deus.
Nesta quarta, no auge de sua decadência, para usar uma expressão evidentemente provocativa, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada completa seus 45 anos existência institucional. Devido às recentes falhas metodológicas, a data comemorativa não poderia ser a pior. Em 1964 fora essa instituição uma das primeiras crias do governo militar. Ainda hoje continua prestando serviços de valor inestimável ao país. Contribuíram com as pesquisas aplicadas boa parte dos melhores economistas brasileiros, como revela este belo estudo documental. Vejo, no entanto, que é hora de buscar maior interdisciplinaridade, para que erros absurdos como aquela comparação de produtividade sejam evitados. Que o próximo presidente afaste o Ipea da influência política! Que seus estudos estejam sempre abertos à crítica científica! – posto que ciência nenhuma é axiologicamente neutra. O papel dessa instituição não é advogar pelas políticas públicas, mas fornecer informações confiáveis aos decisores – estejam eles no executivo, no legislativo ou mesmo em grupos externos ao aparato burocrático. Vida longa ao nosso Ipea.
Vale preencher mais de uma resposta na enquete ao lado, se o leitor me permite a pergunta indiscreta, em tempos de temor à esfera pública.
Em vez de reconhecer a oportunidade de expor publicamente a sua individualidade, e garantir ao seu “ser” um status ontológico diferente de “nada” (para deleitarmo-nos com essa genial inferência de Hannah Arendt), o dito cidadão moderno prefere o silêncio da sobrevivência. Não é culpa dele. A bem da verdade é que ele é um homem, não é um cidadão, no sentido antigo da palavra. Dotado de inteligência, o homem consegue bravamente superar os obstáculos da natureza e sobreviver por um piscar da história, dificilmente mais do que 100 anos. Já o cidadão é dotado da coragem e as referências de seu mundo estão apontadas não para a sua vida, mas a para a sobrevivência e a glória do próprio mundo.
De toda forma, a enquete ao lado foi construída de modo a preservar a privacidade da sua opinião. Eis uma característica importante para o desenvolvimento da recente ciência da estatística. Não à toa, é ela a principal ferramenta das modernas ciências sociais. Mantêm o anonimato dos indivíduos pesquisados, resumindo e simulando seus comportamentos. Com esses ensinamentos aprendemos que a pergunta pela rejeição é capaz de garimpar a real preferência do e-leitor. Veremos.