Por que
1 Fevereiro, 2010 por Leandro Damasioescola
1 Fevereiro, 2010 por Leandro Damasioprimeiro dia
aula “magna” e a
manga da camisa rasgada
yes you can
primeira fila
quadro negro e a
gatinha gostosa na sala
yes you can
primeiro contato
troca o olhar
pela troca de tato
yes you can
primeira série
do ensino médio
novamente faltou professor
yes you can’t
má bondade
15 Janeiro, 2010 por Leandro Damasioah, é tão francisco esse santo!
é tão puro e tão são!
de tantas bondades se ocupou,
que em deus quase quase tocou.
ah, é tão bondoso esse santo!
é tão puro e tão são!
é tão burro e tão vão,
que nem pro céu ele foi.
de tantos desejos esquivou,
que, no caminho do Bem,
nenhum cargo postulou.
de seus milagres
ninguém lembra.
de sua bondade
ninguém agradece.
hoje sequer nem existe.
música experimental
13 Janeiro, 2010 por Leandro DamasioParte da experimentação musical que passou pela São Paulo das últimas décadas se encontra no Coletivo Só, uma publicação musical old-style. Os corajosos fiquem à vontade para copiar as referências e colar nos buscadores de mp3. Mas é recomendável um certo preparo psicológico diante de algum possível choque cultural. Confira.
poema para hannah
13 Janeiro, 2010 por Leandro DamasioCaiu na rede este poema para hannah, homenagem à H. Arendt, do lendário Kype Alen.
dum café às vezes
colheito as saudades de hannah,
a minha primeira- saudosa
-dama filosófica.
um poema seu
devia ser assim: livre.
mesmo sem condições
comecei pela condição.
amor à primeira vista
e à segunda e também depois
com as origens
do terror aceito por quem
não ama o mundo – como nós
me iniciou à liberdade,
trocadilhando em sua
poesia-política
que o novo sempre vem.
Obviedades
9 Janeiro, 2010 por Leandro DamasioConforta-me o aconchego daqui, deste imenso meio campo entre arte e ciência. Pouco me importa o valor socialmente atribuído à produção dessas restingas ociosas. Tudo aqui é regado pelas intuições mais infames e, por isso mesmo, mais obscuras. Precisam de máscaras para adentrar aos círculos de sentido social. Quando se aproximam da técnica, ciência e arte já não parecem meio campo, esta mera condição para ataque e defesa; adquirem respeito, salários e outras dessas pretensões cotidianas. Por que não? No teatro que é a própria sociedade, as máscaras não devem cair, pois a queda, ela representa uma espécie de patologia, protegida mesma por instituições qual hospícios e presídios. Houve períodos em que ciência e arte, nobres bajuladores, se aproximavam da guerra; outros em que se disfarçavam de religião. Melhor hoje: de técnica. Supostamente técnicos, somos nós, os errantes do vinte um, únicos apóstolos do espaço cintilante e, agora, também um pouco brasileiros, conquanto nacionalidade seja uma identidade menor, não menor do que os bairrismos ainda mais vulgares. Somos isto, terráqueos em busca da imortalidade, de modo que a preocupação coletiva, pouco a pouco, volta-se da economia nacional à ecologia planetária. Mas isto denota pouca ante nossas reais ambições cosmo-imortais. Afinal, sempre quisemos ser o que a nossa imaginação pode criar de mais grandioso, isto é, deus. Por que tudo se nos aparece assim pela metade? A grande verdade, por muito escondida, e agora revelada entre os zeros e uns perambulantes, é que, pense bem, todas as atividades estão no meio campo. Tudo é disfarce; tudo joga um pouco no time do zeitgeist (em nosso caso, a técnica) mas também escondidinho nos recantos da inconsciência. É claro que o inconsciente não respeita a ordem social da história. Para ele, nem existe o que poderíamos chamar de tempo. Em outras palavras, sem meio campo nem há máscaras, sem ego não há superego (Freud), sem o ser não há tempo (Heidegger). E vice-versa. São os níveis mais abstratos da existência que garantem significados, sempre confusos, para as regras objetivas. Quando duas inconsciências se tocam, inda que mascaradas, aparece um deus ex-machina para soprar um apito final. Ilusório, é claro.
flag goff
20 Dezembro, 2009 por Leandro DamasioCom puta ação
20 Dezembro, 2009 por Leandro DamasioPreconceito: eis o empuxo do passado não distante. Está em chamas. Nossa época é marcada pelo fim de preconceito. Tudo está em ruínas. Como é bom viver entre as ruínas! O quadro pintado por alguma ficção científica qualquer representa agora a mais pura realidade. Seria uma ultramodernidade? Uma pós-modernidade? Ou nada disso? Aceitando-a, recuso a última resposta. Novamente com Tales de Mileto: tudo é um.
Contra o preconceito, nossa geração é determinada pela pluralidade. Não uma qualquer, mas, sim, a intensa, histórica ou abstrata pluralidade de formas e conteúdos, cada vez mais díspares e excitantes.
Se isto corresponde a alguma noção essencialmente diferente, não ouso afirmar: pois recusar a pergunta significa a melhor das respostas. Em vez de argumentos, sugiro descrever embrulhados exemplos e sensações. Nada seria tão convincente. Ora, não é precisamente agora, neste instante, que olhamos para o passado sem buscar nenhuma autoridade da tradição mas também sem desdenhá-la? Enfim, não somos modernos para rejeitar a tradição nem somos antiquados para aceitá-la. Somos eu e você e quem mais ousar.
Em algum post, este blog levantou a dúvida se Kant teria lido Aristóteles. Razões havia para desacreditarmos, mas a dúvida se perdeu de vista nas alturas. Por rejeitar o “sempre eterno” da autoridade tradicional, Kant não leu. Um homem moderno não queria ler o passado. O projeto da modernidade pretendia recriar, a partir do ponto zero, as bases do pensamento, das artes, da vida.
Em uma leitura rápida de Thomas Hobbes é bem possível capturar como a Inglaterra do século dezesseis repudiava aceitar um argumento de autoridade. Qual não é a ousadia dos franceses ao ler um rebelde chamado René Descarte, que já não mais escrevia em latim, propondo a suspensão de todo o conhecimento?
Não queremos hoje romper a tradição. Não queremos uma crítica da razão pura. A bem da verdade, não respeitamos essa tal de razão. Para além da modernidade, somos os punks da história universal.
Somos até os cyberpunks dessa mesma história. Nós hackeamos a filosofia, trapaceamos a arte, ownamos a história e recriamos os ídolos, enfeitando-os com nariz e olhos vermelhos, feito crianças rabiscando apostila escolar.
Nosso privilégio é poder acessar as criações e libertar a imaginação. Seja pelas bibliotecas e cinematecas virtuais, seja pela acumulação sem precedentes dos capitais, seja pela educação global dantes nunca imaginada, enfim seja pelo que for: nós acessamos tudo. Basta querer. Do yourself.
A arte agora pode misturar gêneros. Pode misturar artes. Pode misturar tudo isso com psicanálise. Com mitologia romana. Com engenharia. Com arqueologia indígena. Com Jordan Secaff. Com econometria. Com você. Com puta ação.
Covardia
10 Dezembro, 2009 por Leandro DamasioMinha vida pode ser resumida com o seguinte trade-off: no eixo x: iluminação e ventilação; no eixo y, silêncio. Na melhor das covardias, dois contra um. Exceto pelas noites, posto o sol; nelas a iluminação pula para fora do gráfico, e a justiça se faz de conta. Assim dito, parece que, de dia, o ponto paretiano joga a favor das buzinas, e, de noite, a favor do silêncio. Não é bem assim. De dia, prefiro a janela fechada. Troco o calor e a luz pelo silêncio. De noite, quando os carros cessam, prefiro a janela aberta, de maneira que minha vida, como a de todo mundo, é uma eterna luta pelo silêncio. Tudo isso se altera nos finais de semana, porque neles o ritmo dos carros é proporcionalmente inverso. Inversa também seria essa descrição, se eu falasse a verdade. E a verdade é que não há uma janela. O perigo da janela consiste em olhar sem ser visto. De repente você se encontra lá em baixo e esquece que há, sim, duas janelas: uma dentro da outra. Poderia fechar a parte de vidro e abrir a de madeira. Isso possibilitaria iluminação sem ventilação. A conclusão mais banal é a seguinte: a situação perfeita só ocorre durante algumas horas do final de semana. Mas, nesse caso, a semana já acabou, o ano já acabou e, afinal, o que não acabou?
Desafio de época
7 Dezembro, 2009 por Leandro DamasioÉ decepcionante a análise política orientada pela mídia mainstream brasileira.
Nenhum fato é neutro. Nem o nêutron atômico, muito menos um fato político. Esperar da mídia a informação neutra representaria aguardar o silêncio, porque, em política, nada existe sem análise. Analisar, desde Aristóteles, significa separar em partes o que antes era unido. É a análise que permite a síntese, definida como uma nova união daquelas partes. Surge desse movimento nada menos que o conhecimento. Sem análise, qualquer fato político seria um dado bruto destituído de sentido. Então, o fato é sempre uma compreensão daquilo que está por trás do fato. Alguns utilizam essa característica para manipulações interesseiras. Grande parte da prática política, inclusive, constitui em propagar informações manipuladas. Outros buscam a reflexão desinteressada sobre o fato exatamente naquilo que está oculto: naquilo que o fato ajuda a revelar. Essa é a tarefa, não do político, mas do intelectual.
Todos podem prever os acontecimentos futuros. Se os Democratas expulsarem Arruda, saciará a pressão da mídia e dos grupos internos e externos, deixará o governador, sozinho, à mercê do julgo político brasiliense, o que provocará um impeachment e mais alguma punição pessoal. Esta solução não difere daquela adotada pelos Trabalhadores em seu recente e semelhante escândalo. Até essa parte do raciocínio, a maior parte dos “analistas” consegue chegar. Daí para frente, a tarefa sobra para quem não é lido em massa. Vá lá.
Provadas as acusações, como de fato estão, o ideal seria que os Democratas punissem todos os envolvidos. Não seria o mais racional, o mais ético, expulsarem todos aqueles que desviam dos valores de um partido? Que incentivos teriam para fazê-lo? Poucos. A repercussão da mídia seria quase a mesma, a ira dos seus opositores seria a mesma, a revolta de seus membros seria maior, perderia bases importantes de poder regional em Brasília. Que benefícios teriam para fazê-lo? Acariciar determinado afã juvenil? A que custo? Não. Eles não expulsarão todos os envolvidos.
Estamos cansados de saber, espero que vocês também estejam, que política não é lugar para a bondade. Bondade existe, mas em outros lugares: na igreja, na oração, na doação privada, no interior da alma humana. Desde Santo Agostinho aprendemos que o lugar da bondade é na esfera privada. Isto não quer dizer que resta à política a maldade. De modo algum! O raciocínio político, vamos lembrar de Maquiavel e de Nietzsche, está para além do bem e do mau. Outros são os critérios de avaliação. Muita gente ainda não aprendeu essa lição básica, o be-a-bá da análise política. Julgada apenas pelos seus efeitos, então, a ação política permite tudo, tudo, tudo, desde que se assuma responsabilidade por feitos. Não existe apenas uma determinação para a responsabilidade. Mas uma delas é indiscutível: as regras institucionais. Ninguém discorda que as regras criam incentivos e punições formais ou informais. E isto, em boa parte, molda a ação, transformando-a, portanto, em um comportamento previsível.
Os Democratas não expulsarão todos os envolvidos, assim como os Trabalhadores não o fizeram, não porque são oportunistas malvados, mas porque não possuem incentivos institucionais para tal. Desde os pilares institucionais disso que é o Brasil, os partidos políticos são institucionalmente fragilizados. Não se trata evidentemente de uma situação casual, mas de um problema crônico, cuja mudança envolve enorme esforço e compreensão pública.
As mudanças institucionais desencadeadas pelo governo Vargas ampliaram e centralizaram poder na alta burocracia sem lhe prever o controle legislativo. A estratégia modernizante varguista foi institucionalizar a cooptação de interesses regionais e econômicos, a exemplo da fundação dos daspinhos e das autarquias e empresas públicas. Um dos efeitos dessa estratégia foi conceder demasiadamente autonomia para a administração. É tão grande o peso político da alta burocracia no Brasil, que ela (e não os partidos – como era de se esperar no modelo representativo de democracia) possui projeto de nação; projeto este verificado pela influência e continuidade das políticas públicas do Itamaraty e das Forças Armadas. Ocorre isto porque a função governativa dos partidos é ofuscada pela função representativa, esta por sua vez centrada no momento decisivo da representação, de maneira que os partidos despreocupam-se com o debate público em detrimento da captura de votos para as sempre próximas eleições.
Esta não é mais uma visão sobre o Brasil. É a questão fundamental para entender a sociedade brasileira, assim como a proteção ao presidente é a questão central para entender o sistema político do nosso país. A mesma proteção, diga-se, interpretada pelos constituintes de 1988 como “a solução” para garantir estabilidade política e governabilidade. Dado o rápido crescimento das estruturas sociais, econômicas e políticas brasileiras, houve uma crise institucional, que provocou, além da interrupção da democracia, o surto da hiperinflação. A característica diferenciada do modelo político brasileiro é, devido à heterogeneidade social, montar o Executivo a partir de ampla coalizão multipartidária. Nenhum outro país funciona assim. Para diminuir a fragilidade política desse presidente que responde para tantos atores, foram criadas estruturas intermediárias, cujo resultado foi blindar o presidente do legislativo tanto quanto do seu próprio partido.
As esperanças que hoje se depositam por sobre o país Brasil em muito devem à autonomia da alta administração pública, que já antes de Vargas, mas acentuada em seu governo, definem as políticas de desenvolvimento nacional. Não foi pelo pragmatismo de seu povo nem pela grandeza de seus políticos que o Brasil, em um século, cresceu o que outras nações européias demoraram dois. Foi pela formação de uma elite administrativa que, protegida da opinião da sociedade “selvagem” e de seus representantes políticos medíocres, conduziu o desenvolvimento econômico, em detrimento das gritantes demandas por igualdade. Foi a linhagem dessa mesma elite que, agora, formula e implementa as políticas sociais mais exitosas do planeta. Ou alguém acredita que a eficácia, raramente reconhecida pela opinião pública, dos novos programas de saúde e de educação são dádivas de um ou outro partido? A verdade é que a opinião pública raramente reconhece esse progresso. E quando reconhece o atribui a um partido ou outro. Mas os partidos brasileiros estão representados pelas associações comerciais, pelos sindicatos trabalhistas, pelas federações industriais, pelos conselhos profissionais. Eles é que no fundo influenciam os agrupamentos que denominamos legalmente como partidos. Eles é que mobilizam pessoas e representam interesses. Eles é que se preocupam com a função representativa tanto quanto a governativa. Sem esses dois elementos o agrupamento político pode ser tudo, menos partido.
O país do futuro precisa entender esse problema. Não podemos perder de vista os vínculos entre estado e sociedade. Não podemos continuar o desenvolvimento sem a clara noção de partidos políticos. Não podemos contar eternamente com o sucesso da alta burocracia descontrolada. Rendemos homenagem a ela, a tudo o que fez, ao país que ela gerou, mas devemos redesenhar a instituição política, para promover melhor accountability. Esta é a mudança do futuro! Uma mudança perigosa, pois balança as estruturas tectônicas do tecido social. Devemos, em síntese, fortalecer o papel dos partidos, para que, depois, eles se ajustem no decorrer de suas disputas. Fortalecer sem, no entanto, enfraquecer a governabilidade. O chamado está feito para os jovens desta geração.
Se, por acaso, os Democratas expulsarem todos os envolvidos no vigente escândalo, esta análise deve ser humildemente refeita.
- sem revisão

