Tradição e crítica

17 Maio, 2012

O mundo nos vem da tradição. Ao nascer recebemos os sentidos atribuídos por aqueles que nos circundam. É inevitável sermos condicionados pela tradição. Não há outro lugar senão o passado para buscarmos as referências do pensamento. Mas este pensamento é, por outro lado, a potência da inovação. A criatividade do pensamento é capaz de imaginar novos conceitos, mas só a ação pode torná-los realizações, assim como a fabricação pode torná-los produtos. A pergunta fundamental da política é: o que devemos mudar? Os posicionamentos no debate surgem devido ao modo como cada assunto nos envolve.

Quando a questão da mudança é colocada, surge o movimento de reação. Este é o movimento de valorização da tradição instituída. A crítica é a reflexão comunicada sobre a questão colocada. O diálogo político pode ser entendido como uma dialética, o confronto de posicionamentos. Neste momento, a liberdade aparece quando a dignidade humana se faz presente, quando a pluralidade é valorizada mais do que a cegueira da minha opinião. O perigo da colocação política (o que devemos mudar) é a anulação da liberdade. O inimigo da liberdade é o fundamentalismo, quando a violência prevalece sobre a educação.

O conservadorismo é uma atitude de aprisionamento do mundo. Já a revolução significa a profunda transformação do mundo. Estas posturas extremas, acentuadas em momentos de tensão política, correspondem a fundamentalismos. Aquele que busca a revolução em momentos de paz e liberdade é tão fundamentalista como aquele que busca a manutenção da ordem em momentos despóticos. Ambos recusam a liberdade. Esta aparece somente na igualdade, na aceitação da diferença. Somente aquele disposto a interpretar a opinião alheia está apto para exercê-la. Quem recusa essa tarefa utiliza a liberdade contra ela. Acredita que a sua opinião vale mais do que a liberdade. Mente para si mesmo, acreditando cegamente que a sua visão é a única que resguarda a liberdade. Isto é evidentemente falso, porque a liberdade é a uma obra de todos, mas uma obra sempre em construção. Os fundamentalistas degeneram a política. Acreditam que sua opinião singular deve se impor a qualquer custo sobre o mundo. Para isso, usam o debate não para a reflexão crítica, mas para a agressão.

Tanto a tradição como a crítica são forças presentes na história. É claro que não estamos falando da força física, mas da força humana, contida na esfera prática, proveniente da sinergia criada pela confiança dirigida para um propósito. A tradição engloba tudo. A crítica é a abertura da mudança. Mas a crítica não é, por si, o caminho da mudança. A crítica busca, na experiência da tradição, os erros e os acertos, para mudar e para manter. Afinal, todos os valores que regem a crítica são frutos da tradição mundana. Os valores pesam por trás dos argumentos. A beleza dos valores, por um lado, e o pragmatismo da opção sinalizada, por outro lado, determinam os melhores argumentos políticos. Os fins e os meios são ambas categorias necessárias para uma boa avaliação dos argumentos políticos. Defensora da liberdade, a crítica da crítica se dirige para a forma como ela se apresenta e para os grandes resultados que ela projeta no debate. A beleza da crítica está na forma como ela se apropria da tradição para reconduzir o futuro do mundo.

O mundo e o universo

16 Maio, 2012

Habitamos o mundo. Dentro do mundo já existente é que nascem os seres humanos. Se o mundo antecede nossa existência, também é verdade que nós criamos o mundo. Nascemos em um mundo que não existiria sem nós. Esse eterno espaço que há, isto não é mundo. O mundo não é o universo. Não há limites para o universo. Diferente do mundo, o universo existe independente da humanidade. Já o mundo precisa de nós. Ao contrário, o universo independe de nós. Ninguém habita o universo. Nossa relação com o universo é de um grão de areia escondido na imensidão total.

O mundo é fruto do sentido atribuído. Somente a experiência gera o mundo. Mas não uma experiência solitária, senão que a comum significação da realidade. O mundo brota da comunicação. Nascemos dentro de um mundo existente para o qual nos dirigimos. Aprendemos o mundo, vivendo no mundo. Não há outro lugar de onde extrairmos todas as referências senão do mundo. As coisas do mundo são os assuntos de que falamos. Existimos na medida em que apontamos afirmações singulares para o mundo. Nosso trato com o mundo é de criação. Nós criamos o mundo. Mas o mundo antecede a nossa existência. O mundo nos cria. A educação provém da pressão do mundo sobre nós. Não há mundo sem humanidade. O mundo precisa de nós, embora ele nos tenha. Ao nos abrigar dentro de si, o mundo pertence a todos nós.

O universo se manifesta no mundo, estando além deste. Nada destruirá o universo. Isto não pode ser dito a respeito do mundo. O mundo é como uma vida: um dia nasceu e um dia vai deixar de ser – ainda que isto pareça, em princípio, um absurdo. O mundo parece infalível devido à forma como ele nos engloba dentro de si. Essa aparente eternidade do mundo é falseada por nosso sentimento de preservação do mundo.

Amamos o mundo e queremos preservá-lo. Fruto do mundo, a humanidade é sua única guardiã. Alguma força jamais cogitada da natureza, proveniente de alguma dimensão qualquer do universo infinito, pode devastar o mundo em segundos. Contra essa força temos pouca condição objetiva de defesa. Quem nos fornece alguma pista é a astronomia, que caminha a passos lentos na tentativa impossível de descobrir o universo. Como descobrir aquilo que, afinal, sempre nos cobrirá por completo?

Considerações científicas

15 Maio, 2012

A ciência moderna começa quando a experimentação passa a ser valorizada como a metodologia exemplar de geração de conhecimento e apreensão da realidade. Em princípio, isto significava a observação, mas logo a experimentação foi entendida em termos de teste de hipóteses. Em alguns casos, as hipóteses jamais poderão ser observadas, embora possam ser comprovadas. Em parte, este movimento contradiz o impulso da ciência moderna, pois coloca a verdade novamente dependente da abstração do pensamento.

A despeito de todo apelo empirista, a única ciência que jamais caiu em descrédito foi a matemática, justamente aquela fundada unicamente sobre objetos mentais, longe de qualquer experimentação. Pois a matemática, desde Euclides até hoje, está construída sobre definições abstratas que se edificam apenas com auxílio da mente. Mesmo a refundação contemporânea da matemática opera em cima de realidades sem referência ao mundo. As novas matemáticas redefinem conceitos básicos desse modelo e avançam sobre alternativas de pensamento, mas elas ainda são isto: teoremas edificados sobre axiomas; entre eles, a operação do pensamento. Neste sentido podemos dizer que mesmo as geometrias não-euclidianas ainda são, em essência, euclidianas.

Se admitirmos a noção iluminista de ciência, parece que o nosso tempo vive um alargamento das possibilidades do conhecimento. A comunicação entre as sociedades científicas, as ferramentas de observação e de computação de cálculo, o compartilhamento de dados: tudo isto parece mais acessível aos institutos de pesquisas, aos laboratórios, enfim, às universidades. Não vejo motivos para alguém recusar essa evolução de potencial científico. Mas também não podemos admitir o desdém da reflexão, o preconceito moderno contra o uso racional da linguagem. A fenomenologia heideggeriana, por exemplo, extrai do cotidiano a abertura da definição dos objetos, e passa a operar exclusivamente com o uso do pensamento (e suas multifacetadas operações) sobre essa abertura, alcançando conclusões realmente novas. É um absurdo esperar dos filósofos a mesma experimentação de uma pesquisa empírica.

O filósofo usa a infinidade de combinação das palavras (sua percepção aguda dos valores contidos atrás dessas palavras e seu exercitado motor raciocinante) para encontrar um sentido elevado das afirmações do conhecimento. Movesse seu esforço na experimentação, não seria um filósofo, mas um cientista. A filosofia requer a experimentação de toda a vida – o que aproximaria, estritamente por este ângulo, o filósofo do poeta (o ser cujo sentimento do mundo inspira a criação na linguagem). Por definição, a filosofia é meta-científica. O conhecimento será, muitas vezes, colocado sob suspeita. Afinal, mais importante do que ele, em todo caso, é a prática. É assim que os filósofos, como os bons políticos e gestores públicos, buscam o esforço incomensurável de integrar a ciência à ética. Não com a preocupação ética no momento da pesquisa, mas com a preocupação do uso do conhecimento no momento da decisão prática. Ou, como diriam os iluministas, o conhecimento verdadeiro é aquele que está ao dispor da humanidade.

Não devemos, por outro lado, sacrificar a futilidade da pesquisa científica quando ela não apresenta resultado prático imediado. A história da ciência nos mostra a relevância de conhecimentos inúteis para o seu tempo, mas grandiosos para o amadurecimento de novas teorias, a exemplo da geometria não-euclidiana, completamente inútil no século dezenove, e sua poderosa aplicação na teoria da relatividade, no século vinte. O potencial dessa teoria é tão grande que possibilitou o surgimento da nanotecnologia e, sem exagero, da comunicação interplanetária.

Explica, Freud

13 Maio, 2012

Hoje sonhei que, por algum motivo, Angola estava construindo um forte com mísseis para atirar no Brasil. Os dois países estavam em guerra. Aí que eu fui convidado pra assumir a direção de um forte brasileiro, que ficava em algum ponto do litoral, frente a frente com o forte angolano. Acontece que o forte brasileiro possuía armas nucleares (mas só os militares sabiam disso). Vieram sérias dúvidas sobre aceitar ou recusar a missão. Não queria que Angola atirasse no Brasil. Melhor destruí-los antes que eles atirassem? – cogitei. Deveria assumir a responsabilidade? Mas eu não era a favor das armas nucleares nem do segredo militar. É só isto que eu lembro. Acho que foi um pesadelo.

A vida e a morte

10 Maio, 2012

A vida, este ínfemo infinitésimo, percurso entre o duplo mistério do nascimento à morte.

Se vivemos, somos seres errantes em meio a um mundo que nos possibilita sobreviver. Na consciência da vida, buscamos algo além da sobrevivência, buscamos uma vida repleta de significados os mais diversos. Mas a morte acontece.

A morte é o desaparecimento da vida. Por que nos entristecemos tanto frente à morte? Porque entre os seres conscientes da própria vida, a morte significa o apagar de uma combinação genética e cultural completamente singular entre todas as outras. Significa o silêncio de uma fala. Não há remédio contra a morte. O ser que morreu já não é. E o ser que se refere ao morto nada pode fazer senão lembrar a sua vida.

Uma pessoa se torna anjo, porque o sentido de sua vida (o exemplo daquilo que fez e a esperança daquilo que faria) serve como lição para os sobreviventes. Como uma homenagem, estes continuam a obra daqueles que se foram.

A boa vida

9 Maio, 2012

A origem é como um milagre, pois contraria a certeza aparente. Do fluxo eterno do Universo vem à luz o Planeta Terra – contendo água, árvores, animais. E, assim, da vida inorgânica da natureza se origina a vida orgânica. Uma vida não é apenas movimentada por forças externas. Vivo, um organismo se movimenta, como se possuísse um motor interno.

De repente, uma vida adquire consciência de si. Esta é a vida humana: uma improvável combinação de material orgânico situado num improvável ambiente planetário. Esta vida, a vida humana, atribui significados. Este detalhe – aparentemente banal para nós, homens, que assim vivemos cotidianamente – possibilita a improvável reflexão sobre a própria vida. Então, a sobrevivência – típica dos seres vivos – passa a ser entendida como um pressuposto, e não como a finalidade. Ressignificando a vida, o homem engendra um edifício de pensamentos. Encontra uma alma por trás da vida, encontra a noção ética por trás da ação, encontra o conhecimento por trás do pensamento – de modo que a vida já não basta: queremos a boa vida.

Torna complexa a busca pela bondade a condição social inerente à vida humana, porque a qualidade ética, então, precisa, por um lado, buscar o sentido do Bem na esfera pública, mas precisa também, por outro lado, entregar o sentido do Bem na organização da sociedade e na produção da bondade que beneficia essa organização.

O Brasil e a geopolítica

18 Abril, 2012

O terceiro milênio começa com duas profundas crises consecutivas. Primeiro, a bolha imobiliária daquele país que podemos chamar, sem nenhum impropério sociológico, de um verdadeiro “Império contemporâneo” – ou seja, aquele que detém não o monopólio, mas a maior fatia dos recursos econômicos e militares. Depois, o endividamento de algumas das mais importantes nações europeias, colocando um obstáculo realmente difícil para o projeto do continente que ainda porta a responsabilidade pela vanguarda da racionalidade. De fato, a União Europeia é um projeto visionário e sinaliza a união. Infelizmente, o mundo sofreu dois duros golpes, deixando abertas algumas tensões internacionais.

Aqui no Brasil, presenciamos progresso. Sem milagres econômicos, caminhamos já faz mais de uma década em crescimento moderado e estável. Uma penosa transformação das regiões mais pobres está em curso, o que nos enche de esperança. Mas, voltando o olhar para o contexto internacional, não é possível dizer que o Brasil começou bem este milênio. Afinal, nenhuma parte se beneficia quando o todo vai mal. É preciso que nós, humanos, tenhamos discernimento para repetir o quanto for necessário: em caso de guerra, todos perdem. A melhor alternativa é começarmos, desde já, a deliberar sobre as consequências da crise, porque esta é a forma adequada de garantir que os decisores brasileiros não se iludam na ambição pelo poder.

Realeza

10 Abril, 2012

O que é um feito? Existem dois tipos de feitos. O feito feito enquanto fabricação. Este é o fazer de coisas feitas. Fazendo, o fabricante coloca seu trabalho à disposição daquilo que se projetou como o que se vai fazer. Diferente é o feito realizado. Aqui, não existe fabricação. Estamos falando da ação. Então, a dimensão é outra: estamos no entre nós, no circunspecto das nossas próprias possibilidades. Tudo o que há de diferente ganha corpo e faz crescer a igualdade existente. Os grandes feitos, dignos de lembrança, surgem nesta esfera. Porque o dirigir-se-nobremente reside fora dos degraus que separam, em hierarquia, aqueles que fazem grandes feitos. Na vanglória das diferenças está aquilo que ultrapassa a tolerância. Isto é fruto de imensa educação para liberdade. A grandeza é uma genialidade de povos cuja força equivale à nobreza.

Ao futuro

10 Abril, 2012

Não quero expressar pouco sentimento, palavras menores e rasteiras – estas que falam mais ao dizer menos. Não quero piscar para uma lente e inalar suspiros derradeiros esfacelados. Preciso, neste momento, respirar o tempo e sonhar com força. Logo um você bizantino, invulnerável, me cruzará o caminho. Quem oferece um vinho goethe ganha uma conversa espessa. No limiar de ausência, o cogitar – e, tão menos possa, sinto todo um futuro. Eu faço o futuro, desde que seja um futuro teu. O brilho afável e retilíneo da ação: isto é o que existe. De histórias, de sopros de vida, de movimentos humanos são feitos objetos. Mas eles são feitos por mãos, enquanto o futuro é feito por bocas. Palavras, sim, orientam, reluzindo.

BRITO 2012

24 Março, 2012

agora o Brentano existe no mundo da língua portuguesa.


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