cruz

9 Fevereiro, 2010 por Leandro Damasio

a mesma cruz
que a Christo crucificou
foi a cruz
que também as espécimes cruzou

a mesma cruz
que a Christo crucificou
foi a cruz
que também os mares cruzou

e incrusive
essa cruz jesuitou o sul

foi a cruz que pastorou
nas cruzadas da igreja
a mesma foi a cruz
que o norte luterou

a mesma cruz
que a Christo crucificou
foi a cruz
que escreveu com negro souza
e foi bordada na bandeira
foi pregada no caixão

cruza cruza cruza

cruza por por cruzes nunda dantes crucificadas

Por que

1 Fevereiro, 2010 por Leandro Damasio

ninguém me avisou que existem isto e isto?

escola

1 Fevereiro, 2010 por Leandro Damasio

primeiro dia
aula “magna” e a
manga da camisa rasgada
yes you can

primeira fila
quadro negro e a
gatinha gostosa na sala
yes you can

primeiro contato
troca o olhar
pela troca de tato
yes you can

primeira série
do ensino médio
novamente faltou professor
yes you can’t

má bondade

15 Janeiro, 2010 por Leandro Damasio

ah, é tão francisco esse santo!
é tão puro e tão são!
de tantas bondades se ocupou,
que em deus quase quase tocou.

ah, é tão bondoso esse santo!
é tão puro e tão são!
é tão burro e tão vão,
que nem pro céu ele foi.

de tantos desejos esquivou,
que, no caminho do Bem,
nenhum cargo postulou.

de seus milagres
ninguém lembra.
de sua bondade
ninguém agradece.
hoje sequer nem existe.

música experimental

13 Janeiro, 2010 por Leandro Damasio

Parte da experimentação musical que passou pela  São Paulo das últimas décadas se encontra no Coletivo Só, uma publicação musical old-style. Os corajosos fiquem à vontade para copiar as referências e colar nos buscadores de mp3. Mas é recomendável um certo preparo psicológico diante de algum possível choque cultural. Confira.

poema para hannah

13 Janeiro, 2010 por Leandro Damasio

dum café às vezes
colheito as saudades de hannah,

a minha primeira- saudosa
-dama filosófica.

um poema seu
devia ser assim: livre.

mesmo sem condições
comecei pela condição.

amor à primeira vista
e à segunda e também depois

com as origens
do terror aceito por quem
não ama o mundo – como nós

me iniciou à liberdade,
trocadilhando em sua
poesia-política
que o novo sempre vem.

Kype Alen

Obviedades

9 Janeiro, 2010 por Leandro Damasio

Conforta-me o aconchego daqui, deste imenso meio campo entre arte e ciência. Pouco me importa o valor socialmente atribuído à produção dessas restingas ociosas. Tudo aqui é regado pelas intuições mais infames e, por isso mesmo, mais obscuras. Precisam de máscaras para adentrar aos círculos de sentido social. Quando se aproximam da técnica, ciência e arte já não parecem meio campo, esta mera condição para ataque e defesa; adquirem respeito, salários e outras dessas pretensões cotidianas. Por que não? No teatro que é a própria sociedade, as máscaras não devem cair, pois a queda, ela representa uma espécie de patologia, protegida mesma por instituições qual hospícios e presídios. Houve períodos em que ciência e arte, nobres bajuladores, se aproximavam da guerra; outros em que se disfarçavam de religião. Melhor hoje: de técnica. Supostamente técnicos, somos nós, os errantes do vinte um, únicos apóstolos do espaço cintilante e, agora, também um pouco brasileiros, conquanto nacionalidade seja uma identidade menor, não menor do que os bairrismos ainda mais vulgares. Somos isto, terráqueos em busca da imortalidade, de modo que a preocupação coletiva, pouco a pouco, volta-se da economia nacional à ecologia planetária. Mas isto denota pouca ante nossas reais ambições cosmo-imortais. Afinal, sempre quisemos ser o que a nossa imaginação pode criar de mais grandioso, isto é, deus. Por que tudo se nos aparece assim pela metade? A grande verdade, por muito escondida, e agora revelada entre os zeros e uns perambulantes, é que, pense bem, todas as atividades estão no meio campo. Tudo é disfarce; tudo joga um pouco no time do zeitgeist (em nosso caso, a técnica) mas também escondidinho nos recantos da inconsciência. É claro que o inconsciente não respeita a ordem social da história. Para ele, nem existe o que poderíamos chamar de tempo. Em outras palavras, sem meio campo nem há máscaras, sem ego não há superego (Freud), sem o ser não há tempo (Heidegger). E vice-versa. São os níveis mais abstratos da existência que garantem significados, sempre confusos, para as regras objetivas. Quando duas inconsciências se tocam, inda que mascaradas, aparece um deus ex-machina para soprar um apito final. Ilusório, é claro.

flag goff

20 Dezembro, 2009 por Leandro Damasio

Com puta ação

20 Dezembro, 2009 por Leandro Damasio

Preconceito: eis o empuxo do passado não distante. Está em chamas. Nossa época é marcada pelo fim de preconceito. Tudo está em ruínas. Como é bom viver entre as ruínas! O quadro pintado por alguma ficção científica qualquer representa agora a mais pura realidade. Seria uma ultramodernidade? Uma pós-modernidade? Ou nada disso? Aceitando-a, recuso a última resposta. Novamente com Tales de Mileto: tudo é um.

Contra o preconceito, nossa geração é determinada pela pluralidade. Não uma qualquer, mas, sim, a intensa, histórica ou abstrata pluralidade de formas e conteúdos, cada vez mais díspares e excitantes.

Se isto corresponde a alguma noção essencialmente diferente, não ouso afirmar: pois recusar a pergunta significa a melhor das respostas. Em vez de argumentos, sugiro descrever embrulhados exemplos e sensações. Nada seria tão convincente. Ora, não é precisamente agora, neste instante, que olhamos para o passado sem buscar nenhuma autoridade da tradição mas também sem desdenhá-la? Enfim, não somos modernos para rejeitar a tradição nem somos antiquados para aceitá-la. Somos eu e você e quem mais ousar.

Em algum post, este blog levantou a dúvida se Kant teria lido Aristóteles. Razões havia para desacreditarmos, mas a dúvida se perdeu de vista nas alturas. Por rejeitar o “sempre eterno” da autoridade tradicional, Kant não leu. Um homem moderno não queria ler o passado. O projeto da modernidade pretendia recriar, a partir do ponto zero,  as bases do pensamento, das artes, da vida.

Em uma leitura rápida de Thomas Hobbes é bem possível capturar como a Inglaterra do século dezesseis repudiava aceitar um argumento de autoridade. Qual não é a ousadia dos franceses ao ler um rebelde chamado René Descarte, que já não mais escrevia em latim, propondo a suspensão de todo o conhecimento?

Não queremos hoje romper a tradição. Não queremos uma crítica da razão pura. A bem da verdade, não respeitamos essa tal de razão. Para além da modernidade, somos os punks da história universal.

Somos até os cyberpunks dessa mesma história. Nós hackeamos a filosofia, trapaceamos a arte, ownamos a história e recriamos os ídolos, enfeitando-os com nariz e olhos vermelhos, feito crianças rabiscando apostila escolar.

Nosso privilégio é poder acessar as criações e libertar a imaginação. Seja pelas bibliotecas e cinematecas virtuais, seja pela acumulação sem precedentes dos capitais, seja pela educação global dantes nunca imaginada, enfim seja pelo que for: nós acessamos tudo. Basta querer. Do yourself.

A arte agora pode misturar gêneros. Pode misturar artes. Pode misturar tudo isso com psicanálise. Com mitologia romana. Com engenharia. Com arqueologia indígena. Com Jordan Secaff. Com econometria. Com você. Com  puta  ação.

Covardia

10 Dezembro, 2009 por Leandro Damasio

Minha vida pode ser resumida com o seguinte trade-off: no eixo x: iluminação e ventilação; no eixo y, silêncio. Na melhor das covardias, dois contra um. Exceto pelas noites, posto o sol; nelas a iluminação pula para fora do gráfico, e a justiça se faz de conta. Assim dito, parece que, de dia, o ponto paretiano joga a favor das buzinas, e, de noite, a favor do silêncio. Não é bem assim. De dia, prefiro a janela fechada. Troco o calor e a luz pelo silêncio. De noite, quando os carros cessam, prefiro a janela aberta, de maneira que minha vida, como a de todo mundo, é uma eterna luta pelo silêncio. Tudo isso se altera nos finais de semana, porque neles o ritmo dos carros é proporcionalmente inverso. Inversa também seria essa descrição, se eu falasse a verdade. E a verdade é que não há uma janela. O perigo da janela consiste em olhar sem ser visto. De repente você se encontra lá em baixo e esquece que há, sim, duas janelas: uma dentro da outra. Poderia fechar a parte de vidro e abrir a de madeira. Isso possibilitaria iluminação sem ventilação. A conclusão mais banal é a seguinte: a situação perfeita só ocorre durante algumas horas do final de semana. Mas, nesse caso, a semana já acabou, o ano já acabou e, afinal, o que não acabou?